terça-feira, 5 de maio de 2009

Como caem as pétalas

Nenúfares - Claude Monet


Depois é que conseguimos perceber o quanto era belo aquilo que não apreciamos.



Como caem as pétalas

As flores já murcharam em meu jardim;
Copo-de-leite cedeu à brisa
matutina invernal, penderam
Do cravo ao jasmim.

Girassóis já não brilharão
sob a luz da lua,
Duendes já não esconderão seus potes de ouro
nos findos arco-íris sobre a grama.

Somente a estranha flor permanece de pé
Desafiando este tempo glacial,
Sofrendo e soando sob estes beirais;
Já pálida, esquece-se da fraqueza das pernas.

Transpiram as janelas: faz frio lá fora.
No inverno, a sorte não afunda sementes.
Onde não posso volver a terra com uma colher,
E não posso livrar minhas flores da morte.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Indulgência

A Primeira Bailarina - Edgar Degas


A antiga Santa Igreja já cobrou a redenção de muitos. O que será que acontecia quando morriam?

Dançavam como os primeiros que atingiam os céus ou choravam por acreditarem falsamente no inferno?

Ou só havia escuridão?



Indulgência

O relógio é um troféu na parede
não percebo o sangue no chão.
O coração de pedra não avisa o quão estou só,
meus pés, secos, anseiam pelo calor;
o corpo frio, emborcado, então me esquece.

Meu sorriso é amarelo,
minhas palavras estão em combustão,
não sou diálogo nem Verbo,
Não soletro e nem refaço
e minha mão já não acaricia.

Chora, criança tola:
a culpa da ignorância é paga pelos dias,
tuas mãos são o chacal
e o tempo a tua gangorra.

E continua duvidando,
cria o limo sob teus pés,
resseca a estática em teus ossos,
empala a mente com tuas lágrimas.

Pensa que sabe
e deságua em tua ignorância:
criança, nem todo verso tem rima,
nem toda canção fala de amor.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 11 de abril de 2009

Sereno

Impressão, Nascer do Sol - Claude Monet


As vezes é triste esperar o dia passar. Esperamos a noite em expectativa e nos agarramos ao fio de esperança da chegada do lençol noturno. Enquanto passa o tempo persistimos em receber o abraço da solidão, que tomamos como companhia.



Sereno

Ainda é dia na solidão do verso
solicito o doce colo da caveira

Desbotadas estão as minhas pêras
que secas lascaram-se na pedra.

É noite na vastidão das palavras
olho o céu no consolo tumular

Caído, aguardo no silêncio
do meu rosto machucado.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fim de festa

A Mulher Bêbada - Jan Steen


Não, não estou com preguiça de escrever. Ao menos não é preguiça, é a letargia que vem depois de uma crise ou de um fim.



Fim de festa

Odor de tabaco no ar e nos cantos;
o cigarro apagado, o cinzeiro emborcado.
Não é fim de Quaresma, ou São João;

no chão, o esperma:
corpos dormentes do cansaço.
Eu, em algum vão embriagado,
troco tudo, erro paredes.

Esqueço, é fim de festa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 24 de março de 2009

Sujo

Satã Observa o Amor de Adão e Eva - Willian Blake


Antes de começar, tenho que fazer notar minha tristeza pelo ocorrido no Sábado 21, o incêndio no Instituto de Química da UFBA, onde muito material e pesquisa foram perdidos mas, felizmente, nenhuma vida.

...

Estranho como as coisas acontecem e parece que não aproveitamos.

Costumo dizer que não somos nada além de "lembranças e vontades" (frase adaptada de um poema de Rafiki). Sinto-me estranho quando lamento mais pelo que lembro do que quando estou vivendo aquele momento, ou me alegro demais por algo que depois já não vale a pena. Não sei se a solução está em "aproveitar o momento".

Somos corruptos ou passíveis de, ou melhor, somos passíveis de tudo, grande livre arbítrio. Contudo, somos profissionais "em pôr a culpa" e esquecemos que somos carne e defeito, lembrança e vontade.

O mundo não tem culpa de nossa passividade, ele se aproveita dela.



Sujo

Mas eu só preciso de um pouco de barro
e um garimpo.
Minha boca já estava cansada das vaginas,
meu pênis arranhado pelas vaginas.

Então, fiz um homem e lhe dei uma mulher.
Ao homem chamei Adão e a mulher Eva,
dei-lhes um jardim para comer
e, de pau e boca cansados, fui assistir a criação.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 16 de março de 2009

Paisagem

Campo de Trigo com Corvos - Vicent Van Gogh


Esse é outro poema que escrevi junto com Max. Particularmente acredito que esse é o melhor dos que foram frutos de uma parceria.

Fala sobre o que se abandona, sobre o que é seco e desolado.



Paisagem
"Somente a ovelha negra fica impune / Enquanto o bom pastor toca a sua flauta" (Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Há um cacto morto na linha do horizonte
Esta terra, de não sei onde, já não é verde.
Estes rios secos sem inverno nem utilidade
Fornecem a imagem tal qual a de um deserto.

Andarilho dos sonhos partidos, cansados
Caminha em busca de sua musa Felicidade.
Com todas as suas verdades negadas
Segue fantasma, segue enfermo, coitado.

Água: só a lembrança do poço vazio
Sombra: só a das rachaduras
Vida: só a do aroma da semente murcha
Alegria: não aqui, junto ao estio.

No caminho acha um pasto, bonito pasto
Onde sós ovelhas negras residem o sonho pastoril.


_Fabrício de Queiroz Venâncio & Max da Fonseca

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Mandamento do Prazer

Na Luxúria, Preste Atenção - Jan Steen


Texto antigo mas com referências fortes... Acho que ainda vale a pena pelo questionamento comum a quem observa a imagem e lê o poema: "até onde podemos nos intregar a nós mesmos?"



O Mandamento do Prazer

A respiração arfante é a evidência,
o medo fará a sua história.
Procuro rosas de olhos fechados
manejo fatos a deriva
do meu prazer.

Por que diria não à sensação?
(ao apego material)
Se do meu corpo faço flatulências
e tenho o púrpura como símbolo.
Por que diria não à voz provocante?
Se do seio arfante, ao sexo ateu
fazem parte o meu prazer.

Juntemo-nos na jogatina,
no vício ilimitado
ou na galhardia dos gritos roucos.
Vamos dançar em volta do mundo
(sons desconexos que não se podem compreender)
andar descalço, nos deixar contaminar.

Vamos cair de joelhos perante a luxúria,
adorar a imagem da decadência,
seguir com a nossa linhagem
(de forma vil, precipitada)
para em um grito, na garganta cortada
de corpo, em alma;
tornar sublime a arte do prazer.

Vamos preencher as lacunas do ócio,
construir a confraternização do pecado e da agonia,
escrever o código da imoralidade;
negar o céu, cuspir ao inferno,
e com aquele sobre este triunfar.

Percebam a hora do coração acelerado
(o perfeito momento do vislumbre).
O sábio que é sábio se entrega,
faz do prazer uma eterna donzela:
que desabrocha por todos os dias,
que faz vencer por todas as horas.

Salve o intuito do Prazer,
diz o Mandamento.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Idades

John Henry Fuseli - Silêncio


A minha idade é pouca.

Contudo, freqüentemente me pego perguntando se meu tempo já passou, se sou o grande azarado desta era, mas sei que existem outros por aí e, como costumo dizer, ser diferente está moda... Então, afasto essa idéia. Muitas vezes me divirto e a utilizo como inspiração.

Esse poema tem duas raízes: a primeira está nesse pensamento de "rapaz afastado"; a segunda nas minhas leituras do poeta Ruy Espinheira Filho, um dos melhores que o país tem vivo.

Antes do poema, gostaria de lembrar que este blog tem uma proposta fixa e não pretende fugir dela, como a relação entre a imagem e o poema. Não vou revelar tudo, os mais curiosos podem se divertir tentando encontrar as relações existentes entre cada uma das minhas postagens.

Agradecimentos aos poucos leitores.



Idades

O silêncio está enferrujado na dobradiça.
Atrás da porta repousa o tempo,
na cabeceira está o pó e no pó
repousam minhas peças velhas.

O terço foi atacado pelas feras,
a cruz tem a ferrugem da descrença;
a santa imagem repousa só
e seus pés estão descalços.

No chão o retrato das minhas eras,
o cabresto que me atém ao luar.
Junto à janela a marca do suor,
a lembrança do eco de passos no vitral.

As traças me fazem lembrar a vida,
os ratos me causam o comichão.
Eu, não sou mais que uma saudade
carregada por um vento já cansado;

um vento farto de mim.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Selo

Mona Lisa - Leonardo Da Vinci


Este poema é uma homenagem para quem me fez dedicou um "selinho": uma nova forma de os usuários de blog prestarem homenagens aos seus leitores e/ou aos blogs que acompanham. Como, pelo modo ao qual escolhi conduzir este blog, não poderia postar um "selinho", fiz um poema e espero que seja feliz em transmitir minha gratidão, mesmo sendo versos de saudade em um quarto escuro.

A imagem é tão famosa quanto um selo é comum e o quanto as cartas, as fotos, os diários, etc., nos fazem lembrar do passado.



Selo

Para Willa Albuquerque


Estava na carta, no blog,
na caixa de correio do lar.
Estava em minhas mãos,
em teu sorriso perdido.

As fotos testemunhavam o silêncio,
(a ponta amassada e o cigarro apagado).
Em mãos, o selo tremia,
borrado de lágrimas e de saudade.

A tinta no papel é velha,
as pontuações marcam a essência.
O telefone toca e penso:
- Será que é ela?

Toda saudade nos faz de tonto:
apostamos no impossível,
sorrimos às pequenas coisas;
quando lambem o selo,
quando chega a carta...


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Caveira com Cigarro Aceso - Vicent Van Gogh


...





Lembro do gosto do xarope,
da pele de mação murcha.

Penso que ainda gosto do amargo,
sendo secos os sulcos em minha pele.

Do outro lado, a gia canta;
de cá, alguém sorri.

Esperança vou e volto - asfalto;
percebo que estou sozinho.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Casa dos Mortos

Dostoiévski - Vassilj Grigorovic Perov

Quantas vezes tentamos ficar só e notamos não ser possível? Quando isso se repete, sentimos uma desagradável sensação de sufoco e imploramos para que a Senhora Solidão tenha um pouco de piedade.

As vezes fazemos uma leitura e despertamos para algo que intrinsecamente já nos pertencia. Agora lembro de uma frase do Richard Bach, em Ilusões: “aprender é somente lembrar do que já sabíamos”.


Mas não é a Richard Bach que vai esse texto, mas a Fiódor Dostoievski e ao seu livro Recordações da Casa dos Mortos, onde ele narra sua experiência como preso político numa prisão na Sibéria.

A um monstro da literatura universal que permanece.



A Casa dos Mortos
"... o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho."
Dostoiévski


É simples o vôo da pena
Cujo peso não pede influência
Em que torta e leve
Consegue pousar macia
Como lira a cantar.

O peso é o crime
O pouso a penitência
que se deve pagar
Ao inverno cortante
Onde companheira se faz de cela
De cobertor se faz o corpo.

Pela manhã ouçam o canto
cantiga forçada de trabalho;
Pela noite me venham copeques
de serviço extra e mão em calejo.

O copeque se faz em vodca
A espera do dia a se embriagar
gozo, apronto
Faz-se do crime o verso
Da bebida o justo da pena.

Vem-se novo dia
(novos meses de serviço)
Só se resta esperar
Um novo dia de vodca
Um novo dia ao desperdício.
Aguardar as desculpas da solidão.

Pois que sou a pena e o vôo
Tenho o nome de liberdade
E comigo sempre estará
Quem direito tem a ser solitário.

O detento não deita em meu colo
Pois quando fica só?
Aprenda a ser fiador
Trabalhe com a vela e o sapato
(refugie-se na embriaguez)
E faça de mim a luz no final do corredor.

_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Gangorra

Eu e a aldeia - Marc Chagall


Depois dos sinceros desejos de bem estar e esperança, um pouco da retórica da contradição.



Gangorra

Não me preocupo com quem ocupa os lados,
balanço e caio conforme critérios
físicos conceituados.
Posso ter medidas de velocidade,
Centro de massa a calcular,
momentos de inércia, rotação.
Brincar com duas crianças:
ser estática.

Posso arrancar sorrisos dos corações maternos,
empalar o verbo ou lhe fazer um ânus.
Conduzo ao prazer do vento no rosto,
sou frio e desgostoso - andrógeno:
sou calada e taciturna,
sarcástico e mau-humorado,
Sou humano, objeto inanimado.

Senta no meu colo, criança:
escolhe, tenho dois pra ti.
Sou o pedófilo de uma nação,
sou religião e ceticismo;
mordo a bunda do meu povo,
mastigo e cuspo os seus colhões.

Sou fiel até o parto,
até segundos antes do choro;
e quando parto já não sou útil
e quando fútil sou inconsciência
e quando vivo, sobrevivo.
Enquanto sou pênis, coração;
enquanto livre, reflexo.

Cedi minhas barras ao Oxigênio,
minha madeira aos cupins;
agora, são todos os sorrisos amarelos.
O bebê é de metal, o garoto,
ao qual eu insistia em aparecer,
é magricela e tem fome.
Já não levanto e me desfaço:
apodreci.

Procuro meu espírito pelos cantos,
já esqueci a minha canção:
bela na boca das crianças,
eterna nos olhos da velhice.
Agora sou solidão embalsamada,
testículo infértil e murcho,
já não sou verde ou maduro:
apodreci, e comigo veio o mundo.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Manhã

A Tempestade - Giorgione


Pensei que a última postagem do ano deveria ser majestosa, causasse impressões nos leitores e que uma das primeiras coisas que eles deveriam fazer em 2009 seria fazer uma releitura deste poema.

Desisti.

Vou colocar um poema de impressões utópicas para a maioria, no qual somente os românticos leitores de poesia conseguem apreciar e sentir uma alimentação saudável dentro de si. Quero dizer que existe o leitor que sempre imprime racionalidade em sua leitura e o que lê com o coração. O segundo é aquele que consegue sentir o que um poema tenta passar, que chora quando o escritor "diz" chore. Não quero criticar o leitor racional, defendo que uma pessoa deve ter as duas formas em si. Eu, como estudante de ciências e que mantenho um blog de poesias, tenho que ter os dois olhares.

Cruzes! Acabei enveredando por caminhos psicológicos demais, servindo-me de uma "psicologia empírica" (sei que meu amigo Darlan vai ri quando lê essa parte).

Pois bem! Que 2009 seja melhor do que já foi 2008 para todos. Que as "canções continuem belas e falando de amor".

Sem mais.



Manhã

Um dia houve Sol e beleza,
acreditávamos demais numa luta,
sonhávamos com o mundo,
as pessoas não eram falsas
e seus sorrisos não nos faziam chorar.

Não havia o terminal lotado
nem imundície nas calçadas.
Não havia o maltrapilho,
ou gente que se mistura a esterco,
nem esse excesso de solidão.

Que rezemos pelo Sol da manhã:
já longo o lençol noturno
e fria a apatia de tua espera.
Rezemos, mesmo que não saibamos oração
ou a quem dedicar as nossas preces.

Esperemos o fim do olhar indiferente,
a recompensa das nossas oferendas,
que sorrisos sejam simplesmente sorrisos,
que toda canção seja longa
e fale sempre de amor.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sobre dúvidas e abandonos

A Fonte - Jean Auguste Dominique Ingres


Quem pode fazer versos? Acho que qualquer pessoa com disposição para arriscar ou qualquer uma que somente sinta-se bem em conversar com si. Troque o si por uma folha de papel e veja no que dá. Acredito que o mais importante em qualquer poema é motivar sentimentos, cutucá-los para que eles respondam: "olha, eu existo".

Mas o conflito é inerente, principalmente depois de leituras e leituras. Mas defendo que nada deve fazer com que nos livremos do bom companheiro que é o papel. Podemos parar de escrever, perder nossa fonte de inspiração; mas um apreciador da poesia jamais perderá a sensibilidade que lhe é inerente.

Lucas Matos é meu amigo e um poeta. Espero que esta imagem não o ofenda: sei que vai entender. Por sinal, recomendo a leitura do seu blog, já que me considero pequeno perto do poder dos seus versos.



Sobre dúvidas e abandonos

Amigo, deixei as letras
os papéis e as canetas.
Deixei as idéias na cabeça
os versos soltos
e os sentimentos aqui dentro.
O que farei agora?

Amigo, não confie nas palavras
nem no silêncio destas garras.
Recupera as tuas armas
e leva um cesto de captura contigo,
pois solto não deve ficar um contento.
Mas repito: não confia.

Amigo, estou velho demais
passou-me o tempo de poeta,
já atingi as minhas metas.
Aquieta, já basta,
não escreverei jamais.
Obrigado, deixa-me morrer agora.

Amigo, lembra que as idéias não têm idade,
que as metas duram tanto quanto a vida;
mas parece que persiste na canção maldita.
Você vegeta, nada cria,
já não me resta piedade.
Mas insisto: não confia.

Mas abandonei as rimas
os sonetos, as estrofes:
não tenho mais inspiração.
Levaram-me tudo, inclusive o perfume
e o ciúme e a paixão...
Que farei então?

Mas lembra-te que a poesia é um trabalho,
lembra do teu suor
e de como, salgado, ainda tecia.
Pensa que nunca precisou de fragrâncias
e ainda assim, poeta, existia...
Mas persisto: não confia.


_Lucas Matos & Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Versos Sujos

Chuva, vapor e velocidade - Willian Turner


Esse poema carrega uma revolta preguiçosa. Aquela que nos faz ter o mais crítico olhar e as mais atrofiadas mãos.

Um abraço.



Versos sujos


Eu sou verso cabisbaixo

a tortura dos amantes,

sou feio, aloprado e sem sentido.

Torto, miserável,

mendigo.


Sou as estrofes perdidas em latrina,

o mudo de boa língua

e boca costurada.

Mas não escute nenhum dos meus gritos,

vagabundo.


Estou entre os dejetos,

faço parte da urina dos homens,

tenho odores desagradáveis.

Só penso pensamentos malogrados,

maldito.


Estou entre as páginas sujas,

no jornal que publica a fome

e no papel que limpa a bunda.

Estou no lixo, na mão do ladrão,

desperdício.



_Fabrício de Queiroz Venâncio