quinta-feira, 27 de maio de 2010

Carniça

Frio - Remedios Varo


Quando nos faltar os dentes usaremos as gengivas... Mas, já será tarde demais: não nos preparamos para a época das gengivas.



Carniça

"Nós somos os homens ocos,
os homens empalhados."
(T.S.Eliot)



Na carcaça há o festim do abutre;
no asfalto descansa o solo quente,
cozinhando a carne aos urubus no alto
numa famigerada mostra de educação.

Resta o osso e o oco, então,
onde antes havia carne.
Em finita viagem partem os carniceiros
a procura de novo corpo cozido;

até que lhes falte o cadáver.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Zumbido

O Pesadelo - John Henry Fuseli



Zumbido

Escrevia

Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.

Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?

Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.

A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.

Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.

Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.

– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?

(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)

Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.

De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.

– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?

_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Saga do Bobo

A Banheira - Edgar Degas


Alguém já percebeu que nos assutamos mais, por exemplo, com um casamento gay do que com a existência de um mendigo?



A Saga do Bobo

I
Na beira do mato está o bobo;
expulso do palácio,
vive a mendigar.

II
Seduziram o bobo com artimanhas;
na armadilha, morreu o infeliz,
durou a noite.

III
Cortando mato repararam num corpo;
no túmulo do bobo morto,
erigiriam um edifício.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Soneto da deliberação

Solve et Coagula - Dino Valls



Soneto da deliberação

Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio
a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta
no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita
onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.

No topo de seus picos pingava a saliva sedenta
em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar
na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá
olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.

Então o desbravador das serras pôs de lado o medo
como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto
agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.

O pecado adentrou nos campos do desejo
a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo
e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Formigas no teto

Imagem ambivalente - Salvador Dalí


Essa imagem me tocou profundamente, tanto que consegui terminar esse poema que já estava há tempos na gaveta.

Acho que demorei de dar um "pronto" neste porque sabia que iria gostar do resultado. Saiu de um pensamento recuperado numa distração, vejam, é muito importante conseguir "capturar" idéias que somente nos acontecem quando nos distraímos, quando estamos de "saco de cheio"... No meu caso, parece que a capacidade de fazer relações se amplia.

Bem, mas coisas felizes as vezes não saem de uma distração diante da tristeza.



Formigas no teto

Faz pouco sentido enquanto espero
a música ainda toca triste, baixo
os amigos estão na sala, sorrindo
estamos indo em silêncio
e nosso choro não pode ser escutado.

Enlouquecemos mas somos ignorantes,
no nosso jogo só existem dois.
No formigueiro brincamos de ciranda,
chamamos de belo o perigoso
de desejo o que é costume.

Pensamos e sorrimos ao mundo,
Somos sebosos e é suja nossa fé,
nosso respiro é gorduroso:
só no cochilo há o alívio,
só na parede a distração.

Não somos mais que este quarto,
Este odor de cigarro abafado,
esta porta de ferro fechada:
Sua ferrugem é o nosso carisma
e nossa canção está no teto.

As formigas caminham,
concentram a nossa atenção.
A tela se apaga pelo desuso,
o banho quente cessa.
E o silêncio, lentamente, nos sufoca.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paredes

Costurando notas - Juarez Machado


Tem vezes que as lembranças resolvem aparecer em momentos estranhos, quando, por exemplo, se estuda algo com uma garrafa de café já vazia num quarto mal iluminado.

E como é estranho o mecanismo das lembranças! Podemos passar por algo tido com superficial e aquele momento ficar marcado (de modo físico e emocional) perfeitamente na memória.

Lembrei de quando era criança e percebi que já era hora (novamente) da mãe do cunhado de minha mãe (vejam só!) tomar o seu remédio, ela havia vindo do interior para Salvador e estava fazendo uns exames e eu que "tomava conta dela durante o dia". Ela falava pouco e, naquele momento, lembro do seu olhar lânguido de velhice, os olhos distantes e imensamente empaturrados de sabedoria.

Daquele dia em diante, achei a velhice muito bonita, principalmente o modo como eles (os velhos) parecem tratar a passagem do tempo de modo diferente. Nunca esqueci a minha posição na sala, a roupa que os dois usavam no dia, o arranjo dos móveis e a sensação que aqueles olhos deixaram em mim.



Paredes

"O que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"
(Júlio Cortázar)


Pia no canto do quarto um rádio empoeirado,
a maresia, convidada pela janela aberta,
passeia livre pelos objetos usados.

A parede, sebosa e caduca, não se recorda do branco;
o brilho faz parte da memória da madeira
e a cadeira já não serve para sentar.

Um último pio do vento e pronto, arma-se a lembrança:
risos de criança que giram num carrossel envelhecido,
ciranda de velhos que rezam em redor do epitáfio.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Enterro

Guilherme de Farias - Sertão


As vezes penso que a natureza não sabe o que deve morrer e o que deve viver, como se fosse um plano frio.

Mas não tenho opinião formada sobre tal e duvido que alguém tenha e que não passe pelo artifício da Fé.



Enterro

A terra encena o revés do parto,
suas raízes são invioláveis pelo esquecimento;
sobre sete palmos está a pedra do limo,
em seu redor, a solidão.

Sepultada em corpo frio está a esperança,
soberana dos idos primórdios;
sob sete palmos come o verme da terra,
em seu corpo, a podridão.

Juntas as mãos calejadas sobre o peito,
mortos o engenho e o fruto do trabalho;
entre sete palmos tatuados de aridez
resta à terra a lembrança do último enterro.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sob sombras curvadas no chão

Retirantes - Cândido Portinari


"E olha que o sertão é o mundo"



Sob sombras curvadas no chão

Eu vejo esqueletos em fôrma de gente;
e Vejo, tão precisamente quanto a fome;
o pé de gangorra que martiriza o doente:
Não há sonetos que cantem à sua colheita.

Não há estrelas que presenciem a cena
desta tosse seca que sacode pulmões;
os olhos tristes são poços fundos
vazios, vazios, a pedir água:
pinga na testa a resposta esquartejada,
seca o sertão esturricado na mão.

Seca a nascente do rio em bolor,
a terra elimina seu último transpiro;
os gravetos varrem o chão
levantando uma poeira que demora a sentar:
espinhaço curvado ao chão,
boca vermelha do barro.

E a dor sempre a dor a cantar amassando o sangue que agora começa a pingar
Grita a voz escassa dentro do pau oco, gritam os dedos curvados a marejar o chão.


_Fabrício de Queiroz Venâncio & Thiers R.

domingo, 5 de julho de 2009

Cochilo

Os Comedores de Batata - Vicent Van Gogh


Muito pode acontecer no inteiro de um cochilo. Ontem, dormi por uns cinco minutos e tive um sonho onde se passaram duas horas.

Não sei, mas acho esse tipo de coisa fascinante.



Cochilo

O único som a que me presto é o do ar.
Sei que folhas são passadas
(alguém rasga e fala num canto)
que pensamentos, de tão concentrados
produzem som.

É verde o quadro negro de números,
a frente são feições apáticas, noturnas
que não sabem se oram pelo dia seguinte
ou pela cama quente de cada dia - um presépio.

Um céu negro - lá fora
reclama por minha atenção.

Os ansiosos cochicham
os silenciosos dormem.
Eu, que sou este véu
estes vermes que rastejam,
sendo tudo num grão de areia,
sendo pouco enquanto mar.

Mas, não sendo maior que qualquer canto
ou mais que esta vertigem que me engole,
o olhar esnobe, a bexiga cheia.
No abismo, sou devaneio - incoerência,
um sonho sonhando em ser acordado,
nesta noite que não passa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 30 de maio de 2009

Gota

A tentação de Santo Antônio - Salvador Dalí


Um poema feito em parceria com meu amigo e poeta Lucas Matos, visitem seu blog (ao lado) e confiram a qualidade dos seus versos.



Gota

Não há terra sob este beiral,
não há sementes para o plantio.
Do animal, ficou o esqueleto,
da estrada, sobrou o pó.

Da fenda o leito observa,
seco rio, dura estrada
arada a terra se partiu
e de uma semente fez-se o plantio.

Há algo entre o fosso e o poço
e não é o frio de uma senzala
nem o odor do fio da navalha:
é um ponto verde insurgente.

E deste único ponto
o solo se faz úmido;
fertilizado, ainda há esperança:
pode do broto surgir o matagal.

Afinal,
toda árvore um dia foi o sonho duma semente.


Fabrício de Queiroz Venâncio & Lucas Matos

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Enquanto espero

O Sonho de Jacob - Marc Chagall


É difícil ser um estudante de ciências e conviver com os outros ao mesmo tempo. Queremos equacionar as relações, fazer levantamento de dados e, quando nos damos conta, depois de pesar prós e contras, percebe-se que esquecemos o sentimento.

Estava olhando e, de modo geral, os poemas deste blog tratam em sua maioria da solidão ou da saudade... Também me impressiono muito com os poemas que carregam essa temática. Mas só digo isso porque é outra coisa que estou tentando entender: as minhas inspirações. Acho bonito os que dizem que olham a chuva e escrevem sobre ela, olham o mar e sentem suas ondas... Na maioria das vezes estes entes carregam a temática da solidão e da saudade em suas águas.

Veja, não acho que minhas linhas sejam um reflexo exato de mim, sou bastante feliz! A idéia que defendo (tenho que defender alguma) é que cada um sente-se bem escrevendo sobre determinado tema e que este tema pode ser alterado no decorrer da vida, como se o poema fosse um despejo reconfortante.

Esses versos pretendem tratar de uma saudade não letárgica.



Enquanto espero

Saudade e pele tenho como companhia,
mas tenho também a lembrança
da forma do corpo passeando,
do cheiro que está em todo ar.

O tempo passa em letargia - inexpresso.
Pressionei o forro do sentimento
e quero me deitar, sozinho:
sonhar a noite inteira com teus lábios.

O aroma no lençol não deixa dormir,
tudo que toco é seu,
parede, travesseiro... Meu tato:
arranho-me por inteiro.

Há uma assinatura em cada foto,
estou calado, arrependido e cansado;
meus pés estão fora da cama,
meu corpo está frio e não posso te abraçar.

Agora, um fósforo me traz a lembrança:
morro e não estou em seu colo.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 5 de maio de 2009

Como caem as pétalas

Nenúfares - Claude Monet


Depois é que conseguimos perceber o quanto era belo aquilo que não apreciamos.



Como caem as pétalas

As flores já murcharam em meu jardim;
Copo-de-leite cedeu à brisa
matutina invernal, penderam
Do cravo ao jasmim.

Girassóis já não brilharão
sob a luz da lua,
Duendes já não esconderão seus potes de ouro
nos findos arco-íris sobre a grama.

Somente a estranha flor permanece de pé
Desafiando este tempo glacial,
Sofrendo e soando sob estes beirais;
Já pálida, esquece-se da fraqueza das pernas.

Transpiram as janelas: faz frio lá fora.
No inverno, a sorte não afunda sementes.
Onde não posso volver a terra com uma colher,
E não posso livrar minhas flores da morte.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Indulgência

A Primeira Bailarina - Edgar Degas


A antiga Santa Igreja já cobrou a redenção de muitos. O que será que acontecia quando morriam?

Dançavam como os primeiros que atingiam os céus ou choravam por acreditarem falsamente no inferno?

Ou só havia escuridão?



Indulgência

O relógio é um troféu na parede
não percebo o sangue no chão.
O coração de pedra não avisa o quão estou só,
meus pés, secos, anseiam pelo calor;
o corpo frio, emborcado, então me esquece.

Meu sorriso é amarelo,
minhas palavras estão em combustão,
não sou diálogo nem Verbo,
Não soletro e nem refaço
e minha mão já não acaricia.

Chora, criança tola:
a culpa da ignorância é paga pelos dias,
tuas mãos são o chacal
e o tempo a tua gangorra.

E continua duvidando,
cria o limo sob teus pés,
resseca a estática em teus ossos,
empala a mente com tuas lágrimas.

Pensa que sabe
e deságua em tua ignorância:
criança, nem todo verso tem rima,
nem toda canção fala de amor.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 11 de abril de 2009

Sereno

Impressão, Nascer do Sol - Claude Monet


As vezes é triste esperar o dia passar. Esperamos a noite em expectativa e nos agarramos ao fio de esperança da chegada do lençol noturno. Enquanto passa o tempo persistimos em receber o abraço da solidão, que tomamos como companhia.



Sereno

Ainda é dia na solidão do verso
solicito o doce colo da caveira

Desbotadas estão as minhas pêras
que secas lascaram-se na pedra.

É noite na vastidão das palavras
olho o céu no consolo tumular

Caído, aguardo no silêncio
do meu rosto machucado.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fim de festa

A Mulher Bêbada - Jan Steen


Não, não estou com preguiça de escrever. Ao menos não é preguiça, é a letargia que vem depois de uma crise ou de um fim.



Fim de festa

Odor de tabaco no ar e nos cantos;
o cigarro apagado, o cinzeiro emborcado.
Não é fim de Quaresma, ou São João;

no chão, o esperma:
corpos dormentes do cansaço.
Eu, em algum vão embriagado,
troco tudo, erro paredes.

Esqueço, é fim de festa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio