Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.
Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?
Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.
A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.
Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.
Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.
– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?
(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)
Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.
De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.
– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?
Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.
No topo de seus picos pingava a saliva sedenta em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.
Então o desbravador das serras pôs de lado o medo como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.
O pecado adentrou nos campos do desejo a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.
Essa imagem me tocou profundamente, tanto que consegui terminar esse poema que já estava há tempos na gaveta.
Acho que demorei de dar um "pronto" neste porque sabia que iria gostar do resultado. Saiu de um pensamento recuperado numa distração, vejam, é muito importante conseguir "capturar" idéias que somente nos acontecem quando nos distraímos, quando estamos de "saco de cheio"... No meu caso, parece que a capacidade de fazer relações se amplia.
Bem, mas coisas felizes as vezes não saem de uma distração diante da tristeza.
Formigas no teto
Faz pouco sentido enquanto espero a música ainda toca triste, baixo os amigos estão na sala, sorrindo estamos indo em silêncio e nosso choro não pode ser escutado.
Enlouquecemos mas somos ignorantes, no nosso jogo só existem dois. No formigueiro brincamos de ciranda, chamamos de belo o perigoso de desejo o que é costume.
Pensamos e sorrimos ao mundo, Somos sebosos e é suja nossa fé, nosso respiro é gorduroso: só no cochilo há o alívio, só na parede a distração.
Não somos mais que este quarto, Este odor de cigarro abafado, esta porta de ferro fechada: Sua ferrugem é o nosso carisma e nossa canção está no teto.
As formigas caminham, concentram a nossa atenção. A tela se apaga pelo desuso, o banho quente cessa. E o silêncio, lentamente, nos sufoca.
Tem vezes que as lembranças resolvem aparecer em momentos estranhos, quando, por exemplo, se estuda algo com uma garrafa de café já vazia num quarto mal iluminado.
E como é estranho o mecanismo das lembranças! Podemos passar por algo tido com superficial e aquele momento ficar marcado (de modo físico e emocional) perfeitamente na memória.
Lembrei de quando era criança e percebi que já era hora (novamente) da mãe do cunhado de minha mãe (vejam só!) tomar o seu remédio, ela havia vindo do interior para Salvador e estava fazendo uns exames e eu que "tomava conta dela durante o dia". Ela falava pouco e, naquele momento, lembro do seu olhar lânguido de velhice, os olhos distantes e imensamente empaturrados de sabedoria.
Daquele dia em diante, achei a velhice muito bonita, principalmente o modo como eles (os velhos) parecem tratar a passagem do tempo de modo diferente. Nunca esqueci a minha posição na sala, a roupa que os dois usavam no dia, o arranjo dos móveis e a sensação que aqueles olhos deixaram em mim.
Paredes
"O que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?" (Júlio Cortázar)
Pia no canto do quarto um rádio empoeirado, a maresia, convidada pela janela aberta, passeia livre pelos objetos usados.
A parede, sebosa e caduca, não se recorda do branco; o brilho faz parte da memória da madeira e a cadeira já não serve para sentar.
Um último pio do vento e pronto, arma-se a lembrança: risos de criança que giram num carrossel envelhecido, ciranda de velhos que rezam em redor do epitáfio.
As vezes penso que a natureza não sabe o que deve morrer e o que deve viver, como se fosse um plano frio.
Mas não tenho opinião formada sobre tal e duvido que alguém tenha e que não passe pelo artifício da Fé.
Enterro
A terra encena o revés do parto, suas raízes são invioláveis pelo esquecimento; sobre sete palmos está a pedra do limo, em seu redor, a solidão.
Sepultada em corpo frio está a esperança, soberana dos idos primórdios; sob sete palmos come o verme da terra, em seu corpo, a podridão.
Juntas as mãos calejadas sobre o peito, mortos o engenho e o fruto do trabalho; entre sete palmos tatuados de aridez resta à terra a lembrança do último enterro.
Eu vejo esqueletos em fôrma de gente; e Vejo, tão precisamente quanto a fome; o pé de gangorra que martiriza o doente: Não há sonetos que cantem à sua colheita.
Não há estrelas que presenciem a cena desta tosse seca que sacode pulmões; os olhos tristes são poços fundos vazios, vazios, a pedir água: pinga na testa a resposta esquartejada, seca o sertão esturricado na mão.
Seca a nascente do rio em bolor, a terra elimina seu último transpiro; os gravetos varrem o chão levantando uma poeira que demora a sentar: espinhaço curvado ao chão, boca vermelha do barro.
E a dor sempre a dor a cantar amassando o sangue que agora começa a pingar Grita a voz escassa dentro do pau oco, gritam os dedos curvados a marejar o chão.
Muito pode acontecer no inteiro de um cochilo. Ontem, dormi por uns cinco minutos e tive um sonho onde se passaram duas horas.
Não sei, mas acho esse tipo de coisa fascinante.
Cochilo
O único som a que me presto é o do ar. Sei que folhas são passadas (alguém rasga e fala num canto) que pensamentos, de tão concentrados produzem som.
É verde o quadro negro de números, a frente são feições apáticas, noturnas que não sabem se oram pelo dia seguinte ou pela cama quente de cada dia - um presépio.
Um céu negro - lá fora reclama por minha atenção.
Os ansiosos cochicham os silenciosos dormem. Eu, que sou este véu estes vermes que rastejam, sendo tudo num grão de areia, sendo pouco enquanto mar.
Mas, não sendo maior que qualquer canto ou mais que esta vertigem que me engole, o olhar esnobe, a bexiga cheia. No abismo, sou devaneio - incoerência, um sonho sonhando em ser acordado, nesta noite que não passa.
É difícil ser um estudante de ciências e conviver com os outros ao mesmo tempo. Queremos equacionar as relações, fazer levantamento de dados e, quando nos damos conta, depois de pesar prós e contras, percebe-se que esquecemos o sentimento.
Estava olhando e, de modo geral, os poemas deste blog tratam em sua maioria da solidão ou da saudade... Também me impressiono muito com os poemas que carregam essa temática. Mas só digo isso porque é outra coisa que estou tentando entender: as minhas inspirações. Acho bonito os que dizem que olham a chuva e escrevem sobre ela, olham o mar e sentem suas ondas... Na maioria das vezes estes entes carregam a temática da solidão e da saudade em suas águas.
Veja, não acho que minhas linhas sejam um reflexo exato de mim, sou bastante feliz! A idéia que defendo (tenho que defender alguma) é que cada um sente-se bem escrevendo sobre determinado tema e que este tema pode ser alterado no decorrer da vida, como se o poema fosse um despejo reconfortante.
Esses versos pretendem tratar de uma saudade não letárgica.
Enquanto espero
Saudade e pele tenho como companhia, mas tenho também a lembrança da forma do corpo passeando, do cheiro que está em todo ar.
O tempo passa em letargia - inexpresso. Pressionei o forro do sentimento e quero me deitar, sozinho: sonhar a noite inteira com teus lábios.
O aroma no lençol não deixa dormir, tudo que toco é seu, parede, travesseiro... Meu tato: arranho-me por inteiro.
Há uma assinatura em cada foto, estou calado, arrependido e cansado; meus pés estão fora da cama, meu corpo está frio e não posso te abraçar.
Agora, um fósforo me traz a lembrança: morro e não estou em seu colo.
Depois é que conseguimos perceber o quanto era belo aquilo que não apreciamos.
Como caem as pétalas
As flores já murcharam em meu jardim; Copo-de-leite cedeu à brisa matutina invernal, penderam Do cravo ao jasmim.
Girassóis já não brilharão sob a luz da lua, Duendes já não esconderão seus potes de ouro nos findos arco-íris sobre a grama.
Somente a estranha flor permanece de pé Desafiando este tempo glacial, Sofrendo e soando sob estes beirais; Já pálida, esquece-se da fraqueza das pernas.
Transpiram as janelas: faz frio lá fora. No inverno, a sorte não afunda sementes. Onde não posso volver a terra com uma colher, E não posso livrar minhas flores da morte.
A antiga Santa Igreja já cobrou a redenção de muitos. O que será que acontecia quando morriam?
Dançavam como os primeiros que atingiam os céus ou choravam por acreditarem falsamente no inferno?
Ou só havia escuridão?
Indulgência
O relógio é um troféu na parede não percebo o sangue no chão. O coração de pedra não avisa o quão estou só, meus pés, secos, anseiam pelo calor; o corpo frio, emborcado, então me esquece.
Meu sorriso é amarelo, minhas palavras estão em combustão, não sou diálogo nem Verbo, Não soletro e nem refaço e minha mão já não acaricia.
Chora, criança tola: a culpa da ignorância é paga pelos dias, tuas mãos são o chacal e o tempo a tua gangorra.
E continua duvidando, cria o limo sob teus pés, resseca a estática em teus ossos, empala a mente com tuas lágrimas.
Pensa que sabe e deságua em tua ignorância: criança, nem todo verso tem rima, nem toda canção fala de amor.
As vezes é triste esperar o dia passar. Esperamos a noite em expectativa e nos agarramos ao fio de esperança da chegada do lençol noturno. Enquanto passa o tempo persistimos em receber o abraço da solidão, que tomamos como companhia.
Sereno
Ainda é dia na solidão do verso solicito o doce colo da caveira
Desbotadas estão as minhas pêras que secas lascaram-se na pedra.
É noite na vastidão das palavras olho o céu no consolo tumular
Caído, aguardo no silêncio do meu rosto machucado.