segunda-feira, 30 de maio de 2011

Prematuro

Eclipse e Osmose Vegetal - Salvador Dalí



Prematuro

Fiz meu epitáfio aos oito anos,
quando então não tinha dentes
e mascava feito velho.

Pés escondidos sob a lama,
molhada pela chuva fina
que molhava a terra suja.

Gengivas encardidas: não havia sorriso;
costelas à mostra: não havia comida.

As mãos de parentes novos
cavaram a tumba;
meus pais estavam ausentes.

Ausente também estava o caixão:
cova rasa, não havia flores,
só último escarro como despedida.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 23 de maio de 2011

23 de Maio

O navio dos tolos - Dino Valls


Ainda nem amanheceu e já tem poeira no asfalto, feito velas de aniversário.



23 de Maio

Não sou parte do ciclo
de terras ermas, salgadas.
Vim do gosto do vazio - fumaça,
pura cria do conflito.

Vejo em partes cada dado,
liso em cada face, desenho
da esguia abstração - não ordeno,
apenas lanço cada fato.

Terra do mau ver, de bobinas
corroídas pelo pó do tempo:
resta o medo em cada esquina.

Não posso secar o corpo, em transpiros
salinos para a guerra,
agourentos como o respiro.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Enquanto não chega o dia

As rosas de Agentuil - Claude Monet


Enquanto não chega, espero. Tomando o devido cuidado pra que essa espera não me transforme numa estátua de sal.



Enquanto não chega o dia

                                             Para CS

Guardei o seu retrato na estante
para sempre acordar com seu sorriso.
Na varanda, o balanço ainda balança
e o rádio ainda é música de sua partida.

Sua boca desenhou a minha
de um batom vermelho que não lavei.
Em sonho, te levei ao precipício
só para mostrar a altura do meu desejo.

No lençol alguns cachos ainda descansam:
não mexo - o tempo de ontem
é como o tempo de agora.

No silêncio, quando pisco, não é escuro:
é sorriso - carregado por brisa matutina
que passa e me dá bom dia.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 15 de março de 2011

Sede

Uma garota arrumando o vaso de flores - Theodule Ribot



Sede

para Adriana, mesmo que ela não goste

I

Desculpe os sentimentos de papel,
os estranhos momentos de reflexão;
os pensamentos que tive que conter,
(os que tanto tive que maturar);
o que de irrelevante tomo como importante.

Gosto de conversar no escuro
(tendo como música a respiração).
Gosto dos breves olhares trocados
(rápidos, desconfiados e luminosos).
Gosto até quando diz "não gosto".

Há momentos em que prefiro o silêncio,
(te deixando ouvir o som dos meus beijos
em passeio pelo mar).
Prefiro o silêncio e os corpos colados
(o odor no ar de corpos suados).

Prendo-me nas confusões,
(nas palavras que pertenciam ao espelho,
nos abafos constrangidos),
E na mudez que precede o tato:
em teus abraços está o meu alívio.


II

Um dia teremos sede.

E quando tudo já não for o bastante
(desmanchados serão os retratos
esquecidas serão as palavras).
Ficarão na memória alguns sorvos e tragos:
eu café, você cigarro.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Asilo

A Condição Humana - René Magritte


"Os jovens não sabem o quanto podem e os velhos não podem o quanto sabem." (Saramago)



Asilo

Na estante, a camisa desbotada;
armários, madeira, mofo:
a alergia já tomou conta.

Não se sabe o turno do tempo,
derradeira visita é lembrança falha
no derreter das horas.

A cadeira balança preguiçosa;
corpo, odor, sujeira:
não houve banho esta manhã.

Uma lágrima corre atrevida,
e a criança tropeça nos pés moles
que incomodam a passagem.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quebra-Cabeça

Os Amantes - René Magritte


"A verdade é que a gente nunca deixa de amar" (Max da Fonseca)

Para melhor se alinhar ao poema, sugiro aqui a leitura do poema que o Max dedicou a mim.



Quebra-Cabeça
A Max da Fonseca


"Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos"
(Ruy Espinheira Filho)

O nervosismo procede ao toque:
pode ser você ao telefone.

No sono o travesseiro não amacia,
nossos lugares já não consigo freqüentar.

Todo despertar se faz em pesadelo:
não sonhei com você.

Nenhum sorriso me causa riso,
sua voz ainda ecoa o som longe.

Quando me distraio num instante,
É o seu nome que aparece em meus cadernos.

Parei no tempo:
Nenhuma manhã pode ser um novo dia.

Quebra-cabeça incompleto,
a espera descansa em meu corpo:
fracasso em lhe esquecer.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Entreato

Sem título - Montez Magno



Entreato

Os bodes secos expostos ao Sol,
pastam na grama amarela
- entre a aurora e o crepúsculo.

Prematuro até mesmo para andar,
diminuto, o filhote alimenta a família
- entre a vida e a morte.

O poço só pode ser vigiado,
água é saudade parceira da fome;
- entre o barro e o cansaço,

esperança feito areia entre dedos.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 3 de outubro de 2010

O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)

Natureza Morta com Absinto - Vicent Van Gogh


A velhice é muito bonita. Para os velhos parece que o tempo passa diferente, ficando essa sensação impressa no modo calmo como se movem, como falam e se organizam dentro do seu tempo.

Pode ser também que já estejam no aguardo da morte, praticando serenamente a única coisa que lhes resta: as lembranças e os amigos.



O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)

A poeira dos carros encharca as
rugas virgens do rosto,
um olhar lânguido de miopia e carne
atenta na paisagem a sua morte.

Tudo lhe parece sinônimo de si:
a palha seca, a sopa podre
e a gia suada emborcada.

Na cidade o povo canta,
os carros passam e ninguém sorri;
numa ausência que se mistura à poeira
que levanta e mela o rosto.

Tudo já lhe é passado:
os jovens, os velhos
e este calafrio que arrepia a nuca.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 15 de agosto de 2010

O delir

A queda de Faetonte - Johann Liss


Quando já não consigo escutar o som através da parede, recordo com remorso.



O delir

Joga de volta estas flores que te dei:
vindas de tua mão se desmanchará,
terá seu sumo extraído
e chegará a mim como perfume.

Devolve aquele colar vindo do mar,
pois é o seu artesão capaz de engoli-lo,
para se desmanchar novamente em areia
e fazer cemitério de novos corais.

Daquele bombom e daquele transpiro de sexo,
faz um emplasto em molde de concha
e torna a ver o milagre da fruta,
adocicando o desejo de outros.

Tuas lágrimas deixa cair que eu recolho:
guardarei num pote âmbar
para eternizar essa penitência salina
e louvá-las em arrependimento,

mas posso também derreá-las no deserto,
para vê-lo então verde e florido:
semearia no vertigo estas flores
e lhe faria brilhar nova coroa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Estalo

Moça Sentada Vista Por Trás - Salvador Dalí


Uma respiração, do outro lado de um muro, nos faz sonhar.



Estalo

Não me apaixono pelas formas,
teores, sabores ou aromas, enfim;
temperamentos passam longe da primeira vista
e tudo que soe longe de sentidos escapam a atração.

Minha sedução está distante de impactos,
o sensorial perde vez ao amaranto,
à sensação de mistério que perturba ao arrepio
e indaga ao silêncio de uma presença.

A percepção se perde e declina,
o destino é varrido por um estalo,
um comichão perpassa aos cabelos da nuca
e a paisagem perde cor, deixa de existir.

Pelo que me apaixono?
Se me perguntam digo que foi
por um olhar, um sorriso;
se me pergunto sou sincero:
digo que não sei.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Carniça

Frio - Remedios Varo


Quando nos faltar os dentes usaremos as gengivas... Mas, já será tarde demais: não nos preparamos para a época das gengivas.



Carniça

"Nós somos os homens ocos,
os homens empalhados."
(T.S.Eliot)



Na carcaça há o festim do abutre;
no asfalto descansa o solo quente,
cozinhando a carne aos urubus no alto
numa famigerada mostra de educação.

Resta o osso e o oco, então,
onde antes havia carne.
Em finita viagem partem os carniceiros
a procura de novo corpo cozido;

até que lhes falte o cadáver.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Zumbido

O Pesadelo - John Henry Fuseli



Zumbido

Escrevia

Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.

Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?

Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.

A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.

Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.

Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.

– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?

(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)

Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.

De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.

– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?

_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Saga do Bobo

A Banheira - Edgar Degas


Alguém já percebeu que nos assutamos mais, por exemplo, com um casamento gay do que com a existência de um mendigo?



A Saga do Bobo

I
Na beira do mato está o bobo;
expulso do palácio,
vive a mendigar.

II
Seduziram o bobo com artimanhas;
na armadilha, morreu o infeliz,
durou a noite.

III
Cortando mato repararam num corpo;
no túmulo do bobo morto,
erigiriam um edifício.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Soneto da deliberação

Solve et Coagula - Dino Valls



Soneto da deliberação

Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio
a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta
no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita
onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.

No topo de seus picos pingava a saliva sedenta
em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar
na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá
olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.

Então o desbravador das serras pôs de lado o medo
como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto
agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.

O pecado adentrou nos campos do desejo
a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo
e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Formigas no teto

Imagem ambivalente - Salvador Dalí


Essa imagem me tocou profundamente, tanto que consegui terminar esse poema que já estava há tempos na gaveta.

Acho que demorei de dar um "pronto" neste porque sabia que iria gostar do resultado. Saiu de um pensamento recuperado numa distração, vejam, é muito importante conseguir "capturar" idéias que somente nos acontecem quando nos distraímos, quando estamos de "saco de cheio"... No meu caso, parece que a capacidade de fazer relações se amplia.

Bem, mas coisas felizes as vezes não saem de uma distração diante da tristeza.



Formigas no teto

Faz pouco sentido enquanto espero
a música ainda toca triste, baixo
os amigos estão na sala, sorrindo
estamos indo em silêncio
e nosso choro não pode ser escutado.

Enlouquecemos mas somos ignorantes,
no nosso jogo só existem dois.
No formigueiro brincamos de ciranda,
chamamos de belo o perigoso
de desejo o que é costume.

Pensamos e sorrimos ao mundo,
Somos sebosos e é suja nossa fé,
nosso respiro é gorduroso:
só no cochilo há o alívio,
só na parede a distração.

Não somos mais que este quarto,
Este odor de cigarro abafado,
esta porta de ferro fechada:
Sua ferrugem é o nosso carisma
e nossa canção está no teto.

As formigas caminham,
concentram a nossa atenção.
A tela se apaga pelo desuso,
o banho quente cessa.
E o silêncio, lentamente, nos sufoca.


_Fabrício de Queiroz Venâncio