segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quebra-Cabeça

Os Amantes - René Magritte


"A verdade é que a gente nunca deixa de amar" (Max da Fonseca)

Para melhor se alinhar ao poema, sugiro aqui a leitura do poema que o Max dedicou a mim.



Quebra-Cabeça
A Max da Fonseca


"Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos"
(Ruy Espinheira Filho)

O nervosismo procede ao toque:
pode ser você ao telefone.

No sono o travesseiro não amacia,
nossos lugares já não consigo freqüentar.

Todo despertar se faz em pesadelo:
não sonhei com você.

Nenhum sorriso me causa riso,
sua voz ainda ecoa o som longe.

Quando me distraio num instante,
É o seu nome que aparece em meus cadernos.

Parei no tempo:
Nenhuma manhã pode ser um novo dia.

Quebra-cabeça incompleto,
a espera descansa em meu corpo:
fracasso em lhe esquecer.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Entreato

Sem título - Montez Magno



Entreato

Os bodes secos expostos ao Sol,
pastam na grama amarela
- entre a aurora e o crepúsculo.

Prematuro até mesmo para andar,
diminuto, o filhote alimenta a família
- entre a vida e a morte.

O poço só pode ser vigiado,
água é saudade parceira da fome;
- entre o barro e o cansaço,

esperança feito areia entre dedos.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 3 de outubro de 2010

O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)

Natureza Morta com Absinto - Vicent Van Gogh


A velhice é muito bonita. Para os velhos parece que o tempo passa diferente, ficando essa sensação impressa no modo calmo como se movem, como falam e se organizam dentro do seu tempo.

Pode ser também que já estejam no aguardo da morte, praticando serenamente a única coisa que lhes resta: as lembranças e os amigos.



O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)

A poeira dos carros encharca as
rugas virgens do rosto,
um olhar lânguido de miopia e carne
atenta na paisagem a sua morte.

Tudo lhe parece sinônimo de si:
a palha seca, a sopa podre
e a gia suada emborcada.

Na cidade o povo canta,
os carros passam e ninguém sorri;
numa ausência que se mistura à poeira
que levanta e mela o rosto.

Tudo já lhe é passado:
os jovens, os velhos
e este calafrio que arrepia a nuca.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 15 de agosto de 2010

O delir

A queda de Faetonte - Johann Liss


Quando já não consigo escutar o som através da parede, recordo com remorso.



O delir

Joga de volta estas flores que te dei:
vindas de tua mão se desmanchará,
terá seu sumo extraído
e chegará a mim como perfume.

Devolve aquele colar vindo do mar,
pois é o seu artesão capaz de engoli-lo,
para se desmanchar novamente em areia
e fazer cemitério de novos corais.

Daquele bombom e daquele transpiro de sexo,
faz um emplasto em molde de concha
e torna a ver o milagre da fruta,
adocicando o desejo de outros.

Tuas lágrimas deixa cair que eu recolho:
guardarei num pote âmbar
para eternizar essa penitência salina
e louvá-las em arrependimento,

mas posso também derreá-las no deserto,
para vê-lo então verde e florido:
semearia no vertigo estas flores
e lhe faria brilhar nova coroa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Estalo

Moça Sentada Vista Por Trás - Salvador Dalí


Uma respiração, do outro lado de um muro, nos faz sonhar.



Estalo

Não me apaixono pelas formas,
teores, sabores ou aromas, enfim;
temperamentos passam longe da primeira vista
e tudo que soe longe de sentidos escapam a atração.

Minha sedução está distante de impactos,
o sensorial perde vez ao amaranto,
à sensação de mistério que perturba ao arrepio
e indaga ao silêncio de uma presença.

A percepção se perde e declina,
o destino é varrido por um estalo,
um comichão perpassa aos cabelos da nuca
e a paisagem perde cor, deixa de existir.

Pelo que me apaixono?
Se me perguntam digo que foi
por um olhar, um sorriso;
se me pergunto sou sincero:
digo que não sei.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Carniça

Frio - Remedios Varo


Quando nos faltar os dentes usaremos as gengivas... Mas, já será tarde demais: não nos preparamos para a época das gengivas.



Carniça

"Nós somos os homens ocos,
os homens empalhados."
(T.S.Eliot)



Na carcaça há o festim do abutre;
no asfalto descansa o solo quente,
cozinhando a carne aos urubus no alto
numa famigerada mostra de educação.

Resta o osso e o oco, então,
onde antes havia carne.
Em finita viagem partem os carniceiros
a procura de novo corpo cozido;

até que lhes falte o cadáver.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Zumbido

O Pesadelo - John Henry Fuseli



Zumbido

Escrevia

Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.

Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?

Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.

A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.

Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.

Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.

– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?

(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)

Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.

De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.

– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?

_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Saga do Bobo

A Banheira - Edgar Degas


Alguém já percebeu que nos assutamos mais, por exemplo, com um casamento gay do que com a existência de um mendigo?



A Saga do Bobo

I
Na beira do mato está o bobo;
expulso do palácio,
vive a mendigar.

II
Seduziram o bobo com artimanhas;
na armadilha, morreu o infeliz,
durou a noite.

III
Cortando mato repararam num corpo;
no túmulo do bobo morto,
erigiriam um edifício.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Soneto da deliberação

Solve et Coagula - Dino Valls



Soneto da deliberação

Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio
a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta
no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita
onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.

No topo de seus picos pingava a saliva sedenta
em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar
na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá
olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.

Então o desbravador das serras pôs de lado o medo
como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto
agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.

O pecado adentrou nos campos do desejo
a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo
e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Formigas no teto

Imagem ambivalente - Salvador Dalí


Essa imagem me tocou profundamente, tanto que consegui terminar esse poema que já estava há tempos na gaveta.

Acho que demorei de dar um "pronto" neste porque sabia que iria gostar do resultado. Saiu de um pensamento recuperado numa distração, vejam, é muito importante conseguir "capturar" idéias que somente nos acontecem quando nos distraímos, quando estamos de "saco de cheio"... No meu caso, parece que a capacidade de fazer relações se amplia.

Bem, mas coisas felizes as vezes não saem de uma distração diante da tristeza.



Formigas no teto

Faz pouco sentido enquanto espero
a música ainda toca triste, baixo
os amigos estão na sala, sorrindo
estamos indo em silêncio
e nosso choro não pode ser escutado.

Enlouquecemos mas somos ignorantes,
no nosso jogo só existem dois.
No formigueiro brincamos de ciranda,
chamamos de belo o perigoso
de desejo o que é costume.

Pensamos e sorrimos ao mundo,
Somos sebosos e é suja nossa fé,
nosso respiro é gorduroso:
só no cochilo há o alívio,
só na parede a distração.

Não somos mais que este quarto,
Este odor de cigarro abafado,
esta porta de ferro fechada:
Sua ferrugem é o nosso carisma
e nossa canção está no teto.

As formigas caminham,
concentram a nossa atenção.
A tela se apaga pelo desuso,
o banho quente cessa.
E o silêncio, lentamente, nos sufoca.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paredes

Costurando notas - Juarez Machado


Tem vezes que as lembranças resolvem aparecer em momentos estranhos, quando, por exemplo, se estuda algo com uma garrafa de café já vazia num quarto mal iluminado.

E como é estranho o mecanismo das lembranças! Podemos passar por algo tido com superficial e aquele momento ficar marcado (de modo físico e emocional) perfeitamente na memória.

Lembrei de quando era criança e percebi que já era hora (novamente) da mãe do cunhado de minha mãe (vejam só!) tomar o seu remédio, ela havia vindo do interior para Salvador e estava fazendo uns exames e eu que "tomava conta dela durante o dia". Ela falava pouco e, naquele momento, lembro do seu olhar lânguido de velhice, os olhos distantes e imensamente empaturrados de sabedoria.

Daquele dia em diante, achei a velhice muito bonita, principalmente o modo como eles (os velhos) parecem tratar a passagem do tempo de modo diferente. Nunca esqueci a minha posição na sala, a roupa que os dois usavam no dia, o arranjo dos móveis e a sensação que aqueles olhos deixaram em mim.



Paredes

"O que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"
(Júlio Cortázar)


Pia no canto do quarto um rádio empoeirado,
a maresia, convidada pela janela aberta,
passeia livre pelos objetos usados.

A parede, sebosa e caduca, não se recorda do branco;
o brilho faz parte da memória da madeira
e a cadeira já não serve para sentar.

Um último pio do vento e pronto, arma-se a lembrança:
risos de criança que giram num carrossel envelhecido,
ciranda de velhos que rezam em redor do epitáfio.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Enterro

Guilherme de Farias - Sertão


As vezes penso que a natureza não sabe o que deve morrer e o que deve viver, como se fosse um plano frio.

Mas não tenho opinião formada sobre tal e duvido que alguém tenha e que não passe pelo artifício da Fé.



Enterro

A terra encena o revés do parto,
suas raízes são invioláveis pelo esquecimento;
sobre sete palmos está a pedra do limo,
em seu redor, a solidão.

Sepultada em corpo frio está a esperança,
soberana dos idos primórdios;
sob sete palmos come o verme da terra,
em seu corpo, a podridão.

Juntas as mãos calejadas sobre o peito,
mortos o engenho e o fruto do trabalho;
entre sete palmos tatuados de aridez
resta à terra a lembrança do último enterro.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sob sombras curvadas no chão

Retirantes - Cândido Portinari


"E olha que o sertão é o mundo"



Sob sombras curvadas no chão

Eu vejo esqueletos em fôrma de gente;
e Vejo, tão precisamente quanto a fome;
o pé de gangorra que martiriza o doente:
Não há sonetos que cantem à sua colheita.

Não há estrelas que presenciem a cena
desta tosse seca que sacode pulmões;
os olhos tristes são poços fundos
vazios, vazios, a pedir água:
pinga na testa a resposta esquartejada,
seca o sertão esturricado na mão.

Seca a nascente do rio em bolor,
a terra elimina seu último transpiro;
os gravetos varrem o chão
levantando uma poeira que demora a sentar:
espinhaço curvado ao chão,
boca vermelha do barro.

E a dor sempre a dor a cantar amassando o sangue que agora começa a pingar
Grita a voz escassa dentro do pau oco, gritam os dedos curvados a marejar o chão.


_Fabrício de Queiroz Venâncio & Thiers R.

domingo, 5 de julho de 2009

Cochilo

Os Comedores de Batata - Vicent Van Gogh


Muito pode acontecer no inteiro de um cochilo. Ontem, dormi por uns cinco minutos e tive um sonho onde se passaram duas horas.

Não sei, mas acho esse tipo de coisa fascinante.



Cochilo

O único som a que me presto é o do ar.
Sei que folhas são passadas
(alguém rasga e fala num canto)
que pensamentos, de tão concentrados
produzem som.

É verde o quadro negro de números,
a frente são feições apáticas, noturnas
que não sabem se oram pelo dia seguinte
ou pela cama quente de cada dia - um presépio.

Um céu negro - lá fora
reclama por minha atenção.

Os ansiosos cochicham
os silenciosos dormem.
Eu, que sou este véu
estes vermes que rastejam,
sendo tudo num grão de areia,
sendo pouco enquanto mar.

Mas, não sendo maior que qualquer canto
ou mais que esta vertigem que me engole,
o olhar esnobe, a bexiga cheia.
No abismo, sou devaneio - incoerência,
um sonho sonhando em ser acordado,
nesta noite que não passa.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 30 de maio de 2009

Gota

A tentação de Santo Antônio - Salvador Dalí


Um poema feito em parceria com meu amigo e poeta Lucas Matos, visitem seu blog (ao lado) e confiram a qualidade dos seus versos.



Gota

Não há terra sob este beiral,
não há sementes para o plantio.
Do animal, ficou o esqueleto,
da estrada, sobrou o pó.

Da fenda o leito observa,
seco rio, dura estrada
arada a terra se partiu
e de uma semente fez-se o plantio.

Há algo entre o fosso e o poço
e não é o frio de uma senzala
nem o odor do fio da navalha:
é um ponto verde insurgente.

E deste único ponto
o solo se faz úmido;
fertilizado, ainda há esperança:
pode do broto surgir o matagal.

Afinal,
toda árvore um dia foi o sonho duma semente.


Fabrício de Queiroz Venâncio & Lucas Matos