Uma garota arrumando o vaso de flores - Theodule Ribot
Sede
para Adriana, mesmo que ela não goste
I
Desculpe os sentimentos de papel, os estranhos momentos de reflexão; os pensamentos que tive que conter, (os que tanto tive que maturar); o que de irrelevante tomo como importante.
Gosto de conversar no escuro (tendo como música a respiração). Gosto dos breves olhares trocados (rápidos, desconfiados e luminosos). Gosto até quando diz "não gosto".
Há momentos em que prefiro o silêncio, (te deixando ouvir o som dos meus beijos em passeio pelo mar). Prefiro o silêncio e os corpos colados (o odor no ar de corpos suados).
Prendo-me nas confusões, (nas palavras que pertenciam ao espelho, nos abafos constrangidos), E na mudez que precede o tato: em teus abraços está o meu alívio.
II
Um dia teremos sede.
E quando tudo já não for o bastante (desmanchados serão os retratos esquecidas serão as palavras). Ficarão na memória alguns sorvos e tragos: eu café, você cigarro.
A velhice é muito bonita. Para os velhos parece que o tempo passa diferente, ficando essa sensação impressa no modo calmo como se movem, como falam e se organizam dentro do seu tempo.
Pode ser também que já estejam no aguardo da morte, praticando serenamente a única coisa que lhes resta: as lembranças e os amigos.
O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)
A poeira dos carros encharca as rugas virgens do rosto, um olhar lânguido de miopia e carne atenta na paisagem a sua morte.
Tudo lhe parece sinônimo de si: a palha seca, a sopa podre e a gia suada emborcada.
Na cidade o povo canta, os carros passam e ninguém sorri; numa ausência que se mistura à poeira que levanta e mela o rosto.
Tudo já lhe é passado: os jovens, os velhos e este calafrio que arrepia a nuca.
Uma respiração, do outro lado de um muro, nos faz sonhar.
Estalo
Não me apaixono pelas formas, teores, sabores ou aromas, enfim; temperamentos passam longe da primeira vista e tudo que soe longe de sentidos escapam a atração.
Minha sedução está distante de impactos, o sensorial perde vez ao amaranto, à sensação de mistério que perturba ao arrepio e indaga ao silêncio de uma presença.
A percepção se perde e declina, o destino é varrido por um estalo, um comichão perpassa aos cabelos da nuca e a paisagem perde cor, deixa de existir.
Pelo que me apaixono? Se me perguntam digo que foi por um olhar, um sorriso; se me pergunto sou sincero: digo que não sei.
Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.
Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?
Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.
A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.
Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.
Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.
– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?
(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)
Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.
De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.
– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?
Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.
No topo de seus picos pingava a saliva sedenta em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.
Então o desbravador das serras pôs de lado o medo como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.
O pecado adentrou nos campos do desejo a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.
Essa imagem me tocou profundamente, tanto que consegui terminar esse poema que já estava há tempos na gaveta.
Acho que demorei de dar um "pronto" neste porque sabia que iria gostar do resultado. Saiu de um pensamento recuperado numa distração, vejam, é muito importante conseguir "capturar" idéias que somente nos acontecem quando nos distraímos, quando estamos de "saco de cheio"... No meu caso, parece que a capacidade de fazer relações se amplia.
Bem, mas coisas felizes as vezes não saem de uma distração diante da tristeza.
Formigas no teto
Faz pouco sentido enquanto espero a música ainda toca triste, baixo os amigos estão na sala, sorrindo estamos indo em silêncio e nosso choro não pode ser escutado.
Enlouquecemos mas somos ignorantes, no nosso jogo só existem dois. No formigueiro brincamos de ciranda, chamamos de belo o perigoso de desejo o que é costume.
Pensamos e sorrimos ao mundo, Somos sebosos e é suja nossa fé, nosso respiro é gorduroso: só no cochilo há o alívio, só na parede a distração.
Não somos mais que este quarto, Este odor de cigarro abafado, esta porta de ferro fechada: Sua ferrugem é o nosso carisma e nossa canção está no teto.
As formigas caminham, concentram a nossa atenção. A tela se apaga pelo desuso, o banho quente cessa. E o silêncio, lentamente, nos sufoca.