Meus queridos e queridas que por aqui passam. Depois de pouco mais de 2 anos de blog, pela primeira vez venho quebrar a rotina deste, porque também faz parte.
Recentemente fui honrado com o convite do poeta Jose Inácio Vieira de Melo para compor uma antologia poética, a figura acima trata-se da capa do livro.
Sangue Novo, da Escrituras Editora, conta a participação de 21 poetas nascidos após a década de 80 e com menos de dois livros publicados. Os poetas escolhidos são excelentes e boa parte tem blog, que pode ser encontrado entre os meus favoritos na barra ao lado.
Quem estiver interessado em adquirir o livro pode entrar em contato comigo pelo e-mail:
fabricioqv@yahoo.com.br
O valor é de R$ 25,00 + frete
Segue mais algumas informações sobre Sangue Novo:
Nesta coletânea, foram selecionados 21 poetas nascidos a partir de 1980, baianos ou radicados na Bahia. Dez residem em Salvador: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Gibran Sousa, Priscila Fernandes, Saulo Moreira, Vânia Melo e Vanny Andrade. Caio Rudá Oliveira, Georgio Rios e Ricardo Thadeu são de Riachão do Jacuípe. Clarissa Macedo e Lidiane Nunes residem em Feira de Santana. Edson Oliveira e Érica Azevedo moram em Santo Estevão. Gildeone dos Santos Oliveira é de Retirolândia. Janara Soares é de Barreiras. Vitor Nascimento Sá é de Maracás. Daniel Farias reside na cidade de São Paulo.
A coletânea conta com a apresentação do escritor e ensaísta Mayrant Gallo, que afirma “Cada poeta se aferra ao seu método de criação e à sua técnica, baseados ambos em suas escolhas pessoais, mas, em geral, o objetivo é o mesmo: acender uma luz no nevoeiro e ascender da obscuridade para a vitrine das relações com o mundo”.
Nas palavras de José Inácio “Sangue Novo muito tem do sangue poético que ora circula pela Bahia e pelos brasis, assim como do velho e bom sangue dos mestres do século XX, que deixaram uma obra que quanto mais o tempo passa, mais se pereniza”. A maior parte destes jovens poetas não tem livro publicado, divulgam seus versos em blogs. São poetas cheios de potencialidades, interessados em se organizar, em promover debates e em mostrar suas produções.
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural.Tem cinco livros de poemas publicados, sendo Roseiral (Escrituras Editora, 2010) o mais recente. Já organizou outras importantes antologias, como é o caso de Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (Aboio Livre Edições, 2004) e a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010 (Escrituras Editora, 2009). Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).
Uma garota arrumando o vaso de flores - Theodule Ribot
Sede
para Adriana, mesmo que ela não goste
I
Desculpe os sentimentos de papel, os estranhos momentos de reflexão; os pensamentos que tive que conter, (os que tanto tive que maturar); o que de irrelevante tomo como importante.
Gosto de conversar no escuro (tendo como música a respiração). Gosto dos breves olhares trocados (rápidos, desconfiados e luminosos). Gosto até quando diz "não gosto".
Há momentos em que prefiro o silêncio, (te deixando ouvir o som dos meus beijos em passeio pelo mar). Prefiro o silêncio e os corpos colados (o odor no ar de corpos suados).
Prendo-me nas confusões, (nas palavras que pertenciam ao espelho, nos abafos constrangidos), E na mudez que precede o tato: em teus abraços está o meu alívio.
II
Um dia teremos sede.
E quando tudo já não for o bastante (desmanchados serão os retratos esquecidas serão as palavras). Ficarão na memória alguns sorvos e tragos: eu café, você cigarro.
A velhice é muito bonita. Para os velhos parece que o tempo passa diferente, ficando essa sensação impressa no modo calmo como se movem, como falam e se organizam dentro do seu tempo.
Pode ser também que já estejam no aguardo da morte, praticando serenamente a única coisa que lhes resta: as lembranças e os amigos.
O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)
A poeira dos carros encharca as rugas virgens do rosto, um olhar lânguido de miopia e carne atenta na paisagem a sua morte.
Tudo lhe parece sinônimo de si: a palha seca, a sopa podre e a gia suada emborcada.
Na cidade o povo canta, os carros passam e ninguém sorri; numa ausência que se mistura à poeira que levanta e mela o rosto.
Tudo já lhe é passado: os jovens, os velhos e este calafrio que arrepia a nuca.
Uma respiração, do outro lado de um muro, nos faz sonhar.
Estalo
Não me apaixono pelas formas, teores, sabores ou aromas, enfim; temperamentos passam longe da primeira vista e tudo que soe longe de sentidos escapam a atração.
Minha sedução está distante de impactos, o sensorial perde vez ao amaranto, à sensação de mistério que perturba ao arrepio e indaga ao silêncio de uma presença.
A percepção se perde e declina, o destino é varrido por um estalo, um comichão perpassa aos cabelos da nuca e a paisagem perde cor, deixa de existir.
Pelo que me apaixono? Se me perguntam digo que foi por um olhar, um sorriso; se me pergunto sou sincero: digo que não sei.
Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.
Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?
Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.
A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.
Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.
Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.
– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?
(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)
Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.
De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.
– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?