quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Fadiga
O meu descanso aguarda o seu consenso.
Fadiga
Eu me cansei das manhãs,
do hálito de cerveja,
dos seios passageiros
e dos seixos em minha janela.
Cansei do sexo fácil,
das noites frias,
do olhar incômodo dos vizinhos
e da porta aberta.
Eu me cansei de tudo,
das navalhas,
das narinas,
dos vestidos rosas
e dos ambientes coloridos:
dos sorrisos fáceis.
Eu me cansei do vazio,
do cheio,
dos aromas e odores,
das brisas e furacões
e da saudade passageira.
Cansei do inusitado,
das armadilhas,
do fogo
e do esperado:
das mentiras.
Cansei do amor
e lhe fiz um bolo de cansaço.
Servi uma taça de fadiga
e brindei à fraqueza,
ao marasmo.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Prontidão
Quatro anos de blog.
Quatro anos de solidão e rompimentos, flores cheias e folhas secas: esmaguei todas sem me dar conta das estações.
Prontidão
Entre nós o que ficou foi o silêncio,
abafado pelas horas de gozo.
Ficou um deserto de prazeres apagados
e coitos vencidos pelo cochilo.
Entre nós o que restou foi uma piedade faminta,
devora-se e nos confunde com esse amor.
Restou a ausência recíproca das manhãs
e uma longa vigília de ingratidão e choro.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Fotografia
A sedutora - Jack VettrianoPrometo: vou acordar cedo para guardar em minha memória as fotos de sua despedida.
Fotografia
Antes de partir não esqueça
os meus cheiros e as torradas.
Deixe aquela garrafa vermelha
para que afogue a sua memória.
Antes de partir limpe o chão
com os nossos vômitos de ontem.
Separe alguns lençóis finos
e cubra a minha nudez preguiçosa.
Antes partir abra a janela
e deixe uma foto sobre a cama.
Em papel perfumado com o seu nome
escreva um recado ao meu dia.
Antes de partir, meu amor,
volta cerrar as cortinas.
Deixe sobre a mesa um cesto de beijos
e um adeus, que vou alimentar com poesia.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Fragmentos
O homem do chapéu-coco - René MagritteCostumo ter os sonhos roubados antes de acordar. Há um monstro devorador de sonhos que vive no deserto. Escondo os poucos que recordo numa caixa de fosforo, dentro da segunda gaveta do armário.
Com cuidado, visito-os com a porta fechada e música ambiente.
Alguém disse que os sonhos têm significado. Pois bem, os meus significam cálcio e digestão.
Fragmentos
Mandei recolher minha matilha.
Farejavam um aroma-jasmim perdido.
Àquela estrela cadente sussurrei seu nome;
acordei nu e de memória apagada.
Coloquei o fumo e o álcool de lado.
Não há sonhos sob o céu sem estrelas.
Dos seus lábios restou uma saudade castanha,
perdida entre travesseiros molhados e espuma quente.
[Dos seus lábios não restou o sorriso:
fotografia absoluta da memória entorpecida.]
O mármore castiga o salão vazio - memória.
Desforro o mel original para o triunfo da crisálida.
Rezo aos deuses omissos da solidão
uma prece tímida de desejo e carne.
Rezo desconfortável enquanto olham da esquina.
A oração é absorvida pela fuligem e pelo asfalto.
A comunhão é interrompida pelo sono,
que chega baixinho enquanto te apunhalo pelas costas.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
terça-feira, 10 de abril de 2012
Olhos castanhos
O passado se conectou ao presente e eu tive que escrever.
Olhos castanhos
Para V.Y.
"When you look at me with those brown eyes
What do you want to say"
(Brown eyes - Fleetwood Mac)
Olhou-me de um jeito que somente as flores conseguem
quando tem um acesso à devassidão.
Então era Outubro e aquele mês nunca passou.
No canto azul do meu quarto eu cochilava,
talvez sonhasse com o teu semblante de carnaval
ou já praguejasse a luz do dia.
Talvez eu sonhasse com o seu corpo nu,
usasse a memória muscular para decorar suas curvas
e tatuar o seu corpo junto ao meu.
Como orvalho, pela manhã você foi embora
e me dedicou um adeus castanho,
que usei para colorir o cinza do meu quarto.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
domingo, 11 de março de 2012
Capitalismo
Capitalismo - Autor desconhecido... não é uma coisa. É uma relação criada pelos homens e mulheres.
Não é o fim, é uma etapa.
Capitalismo
Faz tempo que mastiguei as vísceras da piedade.
Dizem que não tenho idade, que a história acabou em mim.
Vendi a sua escola, a sua água, as borboletas.
A minha fome não tem fim nem sobrenome
e as minhas ideias contaminam a sua época.
Faz tempo que sou um embargo à evolução.
Meu alimento não é o seu pão, centeio ou trigo.
Não me regozijo com sua paz ou vitória,
vendo armas aos derrotados - sou vencedor
e me alimento de suas tripas e músculos.
Ainda ontem uma pedra me atingiu: esforço inútil.
Com minha força engulo o atirador solitário,
abafo seu grito com o passar da história.
Eu faço as suas memórias ao que me convém,
estou nas ciências e nos programas de televisão.
Ainda ontem um grupo se uniu contra mim:
contra várias pedras eu já tenho medo.
Plantei uma árvore de carniça e não vi as suas flores,
tenho medo quando dizem não, enquanto for possível
vou cortando os seus talos com a minha foice.
Enquanto for possível vou abafando seus gritos,
sustentando-me em exploração e pré conceitos,
digerindo as crianças em meu caldo de competição,
descartando os mais velhos, enfeitando contradições.
Até quando, em uníssono, todas as flores irão grigar:
"Revolução"!
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sábado, 7 de janeiro de 2012
Corrida
Sapatos - Vicent Van GoghHoje assisti Forrest Gump e me dei conta que se passaram onze anos desde aquele dia que desliguei a TV. Entendi porque ele começou a correr e porque parou. Chorei em algumas cenas. Onze anos atrás, não teria chorado.
Corrida
Ainda corro e o asfalto é quente;
maçãs maduras, deserto fino.
Esta noite a chuva é caprichosa
e me deixa um aperto no coração.
Esta noite não vai passar enquanto for silêncio,
enquanto continuar vivendo for um frio gostoso
vindo do mar - mensageiro de olhos castanhos.
Castanhos também são os seus olhos,
e os meus - cruzando-se pela madrugada,
enfrentando-se sobre lençóis com o odor
das uvas que roubei de terras vizinhas.
Por trás de máscaras amarelas de carnaval
nos encaramos - corra, não deixe eu te pegar:
meu abraço é perigoso demais para os teus ossinhos.
Ainda corro sobre azulejos cinzentos
e meus pés estão machucados.
Queria mesmo que fosse vôo
alçado em terras castanhas,
ou que você viesse na longa espera da madrugada.
Um cheiro de cravo traz esperança,
o mesmo vento de ondas a retira.
Queria mesmo correr até morrer,
mas o mar está no caminho.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O quarto, a febre e a praça
Homem velho em tristeza - Vicent Van GoghPassou. E passou rápido.
As lágrimas escorrem devagar pelo rosto machucado.
O quarto, a febre e a praça
Eu não preciso de ninguém.
Este caderno me basta.
Este quarto de paredes tortas
com uma xícara de café vazia.
Este anteparo que sustenta minha cabeça.
Só preciso deste travesseiro
que recolheu o suor dos tempos - não lavo:
aqui repousa o suor das minhas musas.
Eu não preciso de ninguém.
Deixe a pólo branca suja de vinho.
Eu mesmo lavo para afogar em espuma branca
esta lembrança de outrora.
Não preciso nem quando estou ardendo em febre
em meio a pílulas brancas.
Nem quando estou a beira do abismo
com uma foice a marcar a minha garganta.
Eu não preciso de ninguém.
Só deste silêncio
varado por um ventilador empoeirado.
Só deste silêncio.
E desta pulsação na garganta
que encoraja o suicídio:
vou cortá-la.
E quando me sinto só, raras vezes,
vou ao parque e brinco de gangorra.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sábado, 26 de novembro de 2011
Embriaguez
Suzanne Valadon - Toulouse-LautrecComo o vermelho e o violeta, opostos, nunca nos encontrávamos. O vermelho e o violeta não se misturam: não podia sequer idealizar esse amor. Essas cores têm diferentes sintonias: não tinha o luxo de saber como seria se alguma coisa fosse. Entre o extremo e o paralelo repousava um sentimento que não entendia. Minha razão balançava.
Pergunta feita e não respondida, resolvi afogá-la num tsunami de vodca e acordei com um fio vermelho sobre o peito.
Embriaguez
O gole de hoje é em sua homenagem.
O brinde de ontem, um drink,
tornou-se o copo vazio sobre a mesa
e o teu nome está escrito na garrafa.
É passada a vodca e ainda bebo.
O frio do vidro machuca a boca:
cansada, substitui o beijo tardio.
As bexigas coloridas murcharam
no silêncio sem ar de uma espera.
Salgado ficou o álcool pelos
olhos pesados da insônia.
Meu corpo é assim, véspera permanente:
sozinho, responde aos teus delírios
e aguarda uma carícia tola de embriaguez.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
domingo, 13 de novembro de 2011
Liberdade
Na Luxúria, preste atenção - Jan SteenSentado por duas horas em uma praça, tomando sorvete e olhando crianças correndo de Kart, conheci a história da vida de três pessoas.
Um pouco mais tarde assisti "Leaves of Grass" e alguns versos de Whitman ficaram em minha cabeça.
Não sei ao certo de onde veio a inspiração. Cuspi esse poema.
Liberdade
"Que pode haver de maior ou menor que um toque?"
(Walt Whitman)
Rompi minha casca de cetim,
a membrana foi embora
na ponta de uma agulha,
rasgou-se em filamentos ímpares
e me vestiu em véu.
Estou livre de uma pele embrutecida,
uma casca morta, uma casca fina.
Peleja que afibrantava o corpo tatuado
tornou-se véu: vou vesti-la e
seduzir com lavagem as minhas porcas.
Vou vesti-la e correr nu pelo campo
com minha seringa em punho,
espalhando meu aroma de resto
e perfurando estas cascas ancestrais.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
domingo, 30 de outubro de 2011
Tatuagem
Nunca havia escrito algo com esse estilo, o que me ocorreu depois da apresentação do Ricardo e do Georgio na Praça. Por isso dediquei esse poema a ele.
Tatuagem
para Ricardo Thadeu
Este poema é tinta de espirro
varada a foice:
chegou, tatuou e foi-se embora.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Mordaça
(sem título) - Jack VettrianoAo que vai muito além do abraço.
Mordaça
VA
Esta carne morena é feito vidro fumê,
abre a porta pra mim, pois não te vejo.
A vontade de dançar já foi embora,
as minhas horas de baile são em seu corpo.
O suor vaticina nossa proximidade,
prontos ao indecente, gargalhamos fantasias.
Aurora presencia a tudo encantada,
esta é a altura do meu grito de desejo.
Chega junto e então me cala:
a tua pele, amor, é a minha mordaça.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Hoje
Só a solidão é solitária e feminina - João Luiz CostaEu me agigantei em vermelho para lhe ver diminuído em violeta.
Hoje
Hoje quero você para a janta;
ossos finos, boca carnuda,
me desnuda só com o olhar.
Sua passagem é sinônimo de rosas
espalhadas sobre corpo macio.
Teus seios, a mostra,
tua virgindade pronta a me inundar.
Hoje espero que não termine;
queixo fino, pernas finas,
me espremem ao comichão.
A lembrança de corpo com corpo
em abraço que imita sexo.
A passagem perfumada,
o silêncio da compreensão.
Hoje não lhe tenho;
fala macia, seios fartos,
hipnose suculenta ainda ausente.
Não há gritaria que me desvie
da clareza de teu silêncio.
Teu sorriso de canto, de leito,
essa distração indecente.
Logo hoje, que amanheci saudade,
você ainda não veio.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Lição ao meio dia
Madame Recavier de David - René Magritte
A epígrafe também poderia ser um verso de Eliot: "o tempo que cria é o tempo que destrói".
Lição ao meio dia
"For the times they are a-changin'"
(Bob Dylan)
Filho, não chore.
Essas feridas não saram,
essa dor que sentes
não amansará com lágrimas.
Veja, o mundo já mudou;
o que antes era pilhéria,
hoje se ostenta com orgulho.
Banalizaram nossas lutas,
ainda desdenham de nossas histórias,
perenizam nosso orgulho - vã esperança.
Mas é nosso o sangue que está no muro
e o suor que floresce os campos.
Veja filho, como a música mudou.
Esses carros e esse tanto de fumaça,
esse povo enlouquecido margeando calçadas:
fuligem solitária sem rumo.
Hoje a palavra serve para nos ferir,
a caixa mágica é um engano;
todas estas cores vêm de um demônio
espreitando consumidores para o bote.
Filho, já não sorria:
a gargalhada pertence a poucos
e dos outros não espere muito:
costuraram suas bocas,
jogaram fora a navalha.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Sangue Novo
Capa do livro "Sangue Novo"Meus queridos e queridas que por aqui passam. Depois de pouco mais de 2 anos de blog, pela primeira vez venho quebrar a rotina deste, porque também faz parte.
Recentemente fui honrado com o convite do poeta Jose Inácio Vieira de Melo para compor uma antologia poética, a figura acima trata-se da capa do livro.
Sangue Novo, da Escrituras Editora, conta a participação de 21 poetas nascidos após a década de 80 e com menos de dois livros publicados. Os poetas escolhidos são excelentes e boa parte tem blog, que pode ser encontrado entre os meus favoritos na barra ao lado.
Quem estiver interessado em adquirir o livro pode entrar em contato comigo pelo e-mail:
fabricioqv@yahoo.com.br
O valor é de R$ 25,00 + frete
Segue mais algumas informações sobre Sangue Novo:
Nesta coletânea, foram selecionados 21 poetas nascidos a partir de 1980, baianos ou radicados na Bahia. Dez residem em Salvador: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Gibran Sousa, Priscila Fernandes, Saulo Moreira, Vânia Melo e Vanny Andrade. Caio Rudá Oliveira, Georgio Rios e Ricardo Thadeu são de Riachão do Jacuípe. Clarissa Macedo e Lidiane Nunes residem em Feira de Santana. Edson Oliveira e Érica Azevedo moram em Santo Estevão. Gildeone dos Santos Oliveira é de Retirolândia. Janara Soares é de Barreiras. Vitor Nascimento Sá é de Maracás. Daniel Farias reside na cidade de São Paulo.
A coletânea conta com a apresentação do escritor e ensaísta Mayrant Gallo, que afirma “Cada poeta se aferra ao seu método de criação e à sua técnica, baseados ambos em suas escolhas pessoais, mas, em geral, o objetivo é o mesmo: acender uma luz no nevoeiro e ascender da obscuridade para a vitrine das relações com o mundo”.
Nas palavras de José Inácio “Sangue Novo muito tem do sangue poético que ora circula pela Bahia e pelos brasis, assim como do velho e bom sangue dos mestres do século XX, que deixaram uma obra que quanto mais o tempo passa, mais se pereniza”. A maior parte destes jovens poetas não tem livro publicado, divulgam seus versos em blogs. São poetas cheios de potencialidades, interessados em se organizar, em promover debates e em mostrar suas produções.
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Tem cinco livros de poemas publicados, sendo Roseiral (Escrituras Editora, 2010) o mais recente. Já organizou outras importantes antologias, como é o caso de Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (Aboio Livre Edições, 2004) e a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010 (Escrituras Editora, 2009). Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).



