sexta-feira, 15 de março de 2013

Despedida

A Violinista - Josef Decamp


Ajudei a menina com a cicatriz a vestir suas sandálias. Eu gosto de pés. Ela fingiu indiferença à gentileza e eu valorizei o esforço do seu disfarce. Depois de alguns beijos, colocamos nossas máscaras de porcelana e fomos separando nossas mãos bem devagar. Aproveitei para olhar as linhas da sua mão direita e medir o seu e o nosso futuro. O adeus caloroso ficou para as novelas.

Não houve choro. Cada um para o seu lado. O que houve foi um troca de corações pesados em uma bandeja quente.



Despedida

                                            às mulheres da minha vida


Estes montes são feitos de açúcar.
Estas praias, juro, são doces
e a areia não machuca os pés.

Estes caracóis um dia hão de me enforcar.
Por enquanto conto-os ao som de ondas
ou do vestido branco esquecido sob a lua.

A memória é atiçada por um vento do mar.
A saudade é um corvo de olhos esbugalhados
que corta os vales e me ceifa num abraço.

Estas são as últimas horas de uma mente sã.
Depois do álcool será zumbido, sexo e solidão:
de você sobrarão diversas lacunas de saudade.

Esta será a última despedia da manhã.
Choraremos juntos, irei caminhar na praia
e soluçar todos os seus nomes ao vento.

No futuro perguntarão se ainda te amo.
Sempre esquivo, responderei
que de amar nunca deixamos.

_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Os dedos

Jack Vettriano - O assessor


O livro "Estudos do corpo" (7Letras, 2011) de Alexandre Coutrinho é uma recente e grata surpresa, que pequei em não ter lido antes.

Posso dividir em duas parte. A primeira é erótica e remonta aos desejos e aos atos. São vários fôlegos de uma leitura densa que aperta em caprichos, que convida à visitação das memórias mais íntimas. A segunda é erótica também, mas musical. Fiz a leitura desta seção numa única investida ao livro, escutando jazz do gênero Smooth e parando bastante para pensar. Fiquei lavado por estas sensações.

Ao ler "Eclipse" comecei a escrever um poema, que terminei algum tempo depois.



Os dedos

Para Alexandre Coutinho


De todos os dedos,
o dedo que escorre
entrelaçado de banho quente
e prenhe de vontades.

De todos os corpos,
aquele que beijou
em sabonete - escorre;
derrama o pecado nas coxas.

Idioma dos cabelos,
ervas coloridas;
aroma de tu só
e solos de jazz.

Uma canção gira na
sintonia de nós mesmos:
respiração metamórfica que
vibra, vibra e vibra.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Estudo da carne

A pele do coelho esfolado - Chaim Soutine


Canibal, começou devorando os dedinhos dos pés. Do pé direito, que não tinha marca de nascença. Seguiu pela carne interna das coxas e se engasgou ao engolir os pêlos finos. Não se importou com os gritos da dor; aos seus ouvidos, soava melodia. Eliminou a gordurinha acumulada na barriga com dentes afiados. Com uma única tacada arrancou um mamilo e fez churrasco de pescoço. Cheiro de carne queimada. A melodia tropeçou no engasgo. Completou a refeição com bochechas e lábios. Cortou o clitóris com a unha e serviu-se empanado.  Na beira da cama, um cabernet sauvignon barato para engolir tudo. Sem tosse.



Estudo da carne

Esperança vã
consolo
temperança.

A princesa descorada
cavalga só
um cavalo manso.

Alfinetadas na bunda
projétil de imensidão.

Saudade só
doença sã.

_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Estações

Mulher no Jardim - Pierre-Auguste Renoir


Calma. Só mais um verão.




Estações

A minha saudade tem sermões fictícios;
liga pela manhã e me espera à tarde.
Durante a noite estou encolhido.

Partiu com a ansiedade engolida;
eu com duas cervejas,
você se fazendo de tímida.

Sentou-se numa primavera quente,
deixou dois beijos na bochecha
e rodou um filme sobre horas vagas.

Ainda só no verão te espero;
todo quente, vocifero desejos
e beijo cangotes à toa.

No outono esqueço entre saias,
no inverno me agasalho em vapores pueris.
Na primavera estou mansinho.

Alguns retratos e tudo desmorona:
a foto é o carma da paixão
e o meu coração não é de confiança.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Digestão

O quarto - Vicent Van Gogh


Em cada canto uma fotografia antiga. Sobre a mesa, um vinho chamado ausência.

Chá mate entrecortado por restos de cravinho, para as noites de calor.

E Fleetwood Mac para o coração.



Digestão

A família lhe trocou por um brinquedo novo.
Os amigos de trabalho olham estranho.
Faz tempo que o gozo não frequenta sua cama
e as putas não lhe aguentam mais.

Os colegas de magistério puseram uma pedra em si;
de propósito, você perdeu todas as fotos.
Vive a se gabar de um ócio preguiçoso
enquanto a comida apodrece na geladeira.

Os professores da faculdade lhe esqueceram;
os vizinhos resolveram não se importar.
No meio das roupas empilhadas o telefone é uma agulha
e as amantes não te ligam mais.

De repente você é um objeto do quarto.
Passeia livre pela mobília e se pergunta:
por que lhe trocaram por um tanto de areia?
Por que lhe resumiram a um punhado de pó?

_Fabrício de Queiroz Venâncio

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Fadiga

Os mentirosos - João Luiz Costa


O meu descanso aguarda o seu consenso.




Fadiga

Eu me cansei das manhãs,
do hálito de cerveja,
dos seios passageiros
e dos seixos em minha janela.

Cansei do sexo fácil,
das noites frias,
do olhar incômodo dos vizinhos
e da porta aberta.

Eu me cansei de tudo,
das navalhas,
das narinas,
dos vestidos rosas
e dos ambientes coloridos:
dos sorrisos fáceis.

Eu me cansei do vazio,
do cheio,
dos aromas e odores,
das brisas e furacões
e da saudade passageira.

Cansei do inusitado,
das armadilhas,
do fogo
e do esperado:
das mentiras.

Cansei do amor
e lhe fiz um bolo de cansaço.
Servi uma taça de fadiga
e brindei à fraqueza,
ao marasmo.

_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Prontidão


Retrato de Jeanne Hébuterne - Amadeo Modigliani


Quatro anos de blog.

Quatro anos de solidão e rompimentos, flores cheias e folhas secas: esmaguei todas sem me dar conta das estações.




Prontidão

Entre nós o que ficou foi o silêncio,
abafado pelas horas de gozo.

Ficou um deserto de prazeres apagados
e coitos vencidos pelo cochilo.

Entre nós o que restou foi uma piedade faminta,
devora-se e nos confunde com esse amor.

Restou a ausência recíproca das manhãs
e uma longa vigília de ingratidão e choro.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Fotografia

A sedutora - Jack Vettriano


Prometo: vou acordar cedo para guardar em minha memória as fotos de sua despedida.



Fotografia

Antes de partir não esqueça
os meus cheiros e as torradas.
Deixe aquela garrafa vermelha
para que afogue a sua memória.

Antes de partir limpe o chão
com os nossos vômitos de ontem.
Separe alguns lençóis finos
e cubra a minha nudez preguiçosa.

Antes partir abra a janela
e deixe uma foto sobre a cama.
Em papel perfumado com o seu nome
escreva um recado ao meu dia.

Antes de partir, meu amor,
volta cerrar as cortinas.
Deixe sobre a mesa um cesto de beijos
e um adeus, que vou alimentar com poesia.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fragmentos

O homem do chapéu-coco - René Magritte


Costumo ter os sonhos roubados antes de acordar. Há um monstro devorador de sonhos que vive no deserto. Escondo os poucos que recordo numa caixa de fosforo, dentro da segunda gaveta do armário.

Com cuidado, visito-os com a porta fechada e música ambiente.

Alguém disse que os sonhos têm significado. Pois bem, os meus significam cálcio e digestão.



Fragmentos

Mandei recolher minha matilha.
Farejavam um aroma-jasmim perdido.
Àquela estrela cadente sussurrei seu nome;
acordei nu e de memória apagada.

Coloquei o fumo e o álcool de lado.
Não há sonhos sob o céu sem estrelas.
Dos seus lábios restou uma saudade castanha,
perdida entre travesseiros molhados e espuma quente.

[Dos seus lábios não restou o sorriso:
fotografia absoluta da memória entorpecida.]

O mármore castiga o salão vazio - memória.
Desforro o mel original para o triunfo da crisálida.
Rezo aos deuses omissos da solidão
uma prece tímida de desejo e carne.

Rezo desconfortável enquanto olham da esquina.
A oração é absorvida pela fuligem e pelo asfalto.
A comunhão é interrompida pelo sono,
que chega baixinho enquanto te apunhalo pelas costas.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

terça-feira, 10 de abril de 2012

Olhos castanhos

A cama - Toulouse-Lautrec


O passado se conectou ao presente e eu tive que escrever.



Olhos castanhos

Para V.Y.


"When you look at me with those brown eyes
What do you want to say"

(Brown eyes - Fleetwood Mac)

Olhou-me de um jeito que somente as flores conseguem
quando tem um acesso à devassidão.
Então era Outubro e aquele mês nunca passou.

No canto azul do meu quarto eu cochilava,
talvez sonhasse com o teu semblante de carnaval
ou já praguejasse a luz do dia.

Talvez eu sonhasse com o seu corpo nu,
usasse a memória muscular para decorar suas curvas
e tatuar o seu corpo junto ao meu.

Como orvalho, pela manhã você foi embora
e me dedicou um adeus castanho,
que usei para colorir o cinza do meu quarto.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 11 de março de 2012

Capitalismo

Capitalismo - Autor desconhecido


... não é uma coisa. É uma relação criada pelos homens e mulheres.

Não é o fim, é uma etapa.



Capitalismo

Faz tempo que mastiguei as vísceras da piedade.
Dizem que não tenho idade, que a história acabou em mim.
Vendi a sua escola, a sua água, as borboletas.
A minha fome não tem fim nem sobrenome
e as minhas ideias contaminam a sua época.

Faz tempo que sou um embargo à evolução.
Meu alimento não é o seu pão, centeio ou trigo.
Não me regozijo com sua paz ou vitória,
vendo armas aos derrotados - sou vencedor
e me alimento de suas tripas e músculos.

Ainda ontem uma pedra me atingiu: esforço inútil.
Com minha força engulo o atirador solitário,
abafo seu grito com o passar da história.
Eu faço as suas memórias ao que me convém,
estou nas ciências e nos programas de televisão.

Ainda ontem um grupo se uniu contra mim:
contra várias pedras eu já tenho medo.
Plantei uma árvore de carniça e não vi as suas flores,
tenho medo quando dizem não, enquanto for possível
vou cortando os seus talos com a minha foice.

Enquanto for possível vou abafando seus gritos,
sustentando-me em exploração e pré conceitos,
digerindo as crianças em meu caldo de competição,
descartando os mais velhos, enfeitando contradições.
Até quando, em uníssono, todas as flores irão grigar:
"Revolução"!


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 7 de janeiro de 2012

Corrida

Sapatos - Vicent Van Gogh


Na TV passava um filme que queria assistir fazia tempo, o Forrest Gump. Estava na cena em que ele é deixado pela Jenny e começa a correr. Desliguei a TV logo quando ele decide parar e voltar para a casa, queria assistir aquele filme completo.

Hoje assisti Forrest Gump e me dei conta que se passaram onze anos desde aquele dia que desliguei a TV. Entendi porque ele começou a correr e porque parou. Chorei em algumas cenas. Onze anos atrás, não teria chorado.



Corrida

Ainda corro e o asfalto é quente;
maçãs maduras, deserto fino.
Esta noite a chuva é caprichosa
e me deixa um aperto no coração.

Esta noite não vai passar enquanto for silêncio,
enquanto continuar vivendo for um frio gostoso
vindo do mar - mensageiro de olhos castanhos.

Castanhos também são os seus olhos,
e os meus - cruzando-se pela madrugada,
enfrentando-se sobre lençóis com o odor
das uvas que roubei de terras vizinhas.

Por trás de máscaras amarelas de carnaval
nos encaramos - corra, não deixe eu te pegar:
meu abraço é perigoso demais para os teus ossinhos.

Ainda corro sobre azulejos cinzentos
e meus pés estão machucados.
Queria mesmo que fosse vôo
alçado em terras castanhas,

ou que você viesse na longa espera da madrugada.

Um cheiro de cravo traz esperança,
o mesmo vento de ondas a retira.
Queria mesmo correr até morrer,
mas o mar está no caminho.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O quarto, a febre e a praça

Homem velho em tristeza - Vicent Van Gogh


Passou. E passou rápido.

As lágrimas escorrem devagar pelo rosto machucado.



O quarto, a febre e a praça

Eu não preciso de ninguém.
Este caderno me basta.
Este quarto de paredes tortas
com uma xícara de café vazia.
Este anteparo que sustenta minha cabeça.

Só preciso deste travesseiro
que recolheu o suor dos tempos - não lavo:
aqui repousa o suor das minhas musas.

Eu não preciso de ninguém.
Deixe a pólo branca suja de vinho.
Eu mesmo lavo para afogar em espuma branca
esta lembrança de outrora.

Não preciso nem quando estou ardendo em febre
em meio a pílulas brancas.
Nem quando estou a beira do abismo
com uma foice a marcar a minha garganta.

Eu não preciso de ninguém.
Só deste silêncio
varado por um ventilador empoeirado.

Só deste silêncio.
E desta pulsação na garganta
que encoraja o suicídio:
vou cortá-la.

E quando me sinto só, raras vezes,
vou ao parque e brinco de gangorra.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

sábado, 26 de novembro de 2011

Embriaguez

Suzanne Valadon - Toulouse-Lautrec


Ela tinha vermelho no cabelo e minha cor favorita era o violeta. Racionalizei a situação recordando que o vermelho e o violeta são os extremos do espectro visível. Pude amar.

Como o vermelho e o violeta, opostos, nunca nos encontrávamos. O vermelho e o violeta não se misturam: não podia sequer idealizar esse amor. Essas cores têm diferentes sintonias: não tinha o luxo de saber como seria se alguma coisa fosse. Entre o extremo e o paralelo repousava um sentimento que não entendia. Minha razão balançava.

Pergunta feita e não respondida, resolvi afogá-la num tsunami de vodca e acordei com um fio vermelho sobre o peito.



Embriaguez

O gole de hoje é em sua homenagem.
O brinde de ontem, um drink,
tornou-se o copo vazio sobre a mesa
e o teu nome está escrito na garrafa.

É passada a vodca e ainda bebo.
O frio do vidro machuca a boca:
cansada, substitui o beijo tardio.

As bexigas coloridas murcharam
no silêncio sem ar de uma espera.
Salgado ficou o álcool pelos
olhos pesados da insônia.

Meu corpo é assim, véspera permanente:
sozinho, responde aos teus delírios
e aguarda uma carícia tola de embriaguez.


_Fabrício de Queiroz Venâncio

domingo, 13 de novembro de 2011

Liberdade

Na Luxúria, preste atenção - Jan Steen


Sentado por duas horas em uma praça, tomando sorvete e olhando crianças correndo de Kart, conheci a história da vida de três pessoas.

Um pouco mais tarde assisti "Leaves of Grass" e alguns versos de Whitman ficaram em minha cabeça.

Não sei ao certo de onde veio a inspiração. Cuspi esse poema.



Liberdade

"Que pode haver de maior ou menor que um toque?"
(Walt Whitman)


Rompi minha casca de cetim,
a membrana foi embora
na ponta de uma agulha,
rasgou-se em filamentos ímpares
e me vestiu em véu.

Estou livre de uma pele embrutecida,
uma casca morta, uma casca fina.
Peleja que afibrantava o corpo tatuado
tornou-se véu: vou vesti-la e
seduzir com lavagem as minhas porcas.

Vou vesti-la e correr nu pelo campo
com minha seringa em punho,
espalhando meu aroma de resto
e perfurando estas cascas ancestrais.


_Fabrício de Queiroz Venâncio