Gangrena do braço amputado no hospital - Eduard Stauch
Paradoxalmente, educadas e educados ao sofrimento e ao sorriso.
Inanimado
Conheci a angústia
muito cedo
antes de virar gente
tornar-me oco.
Pintei o horizonte
de lonjuras
e me vi de pernas
atadas, cabeça feita;
mordaça pronta de couro
atando lágrimas
chamando de pouco
o que era nada;
chamando de tudo
o que era absurdo
chamando de vida
o que era túmulo;
chamando de idade
o que era juventude
chamando de saudade
o que era somente parte.
Chorei ao nascer
e não parei
com essa perversão raquítica
que põe a alma em eterno sertão;
que seca em calçadas amoniacais
que disseca
o oco que era carne
a carne que é gente.
(Fabrício de Queiroz)
quarta-feira, 22 de julho de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Hoje eu não quero sorrir
Manhã - Nikolai Pozdneev
Esse é um poema violento.
Hoje eu não quero sorrir
Deixem-me confortável em minha solidão,
não tentem apagar minha expressão vazia
ou maldizer meus amigos que não consolam,
ou não me chamam para sair
tomar uma cerveja, expor-se:
viver.
Não discriminem sequer a minha tristeza
que me aplaca o espírito,
enquanto digo a todos que estou bem
e feliz.
Deixem que eu fuja por alguns instantes
da ditadura revolucionária da felicidade,
escreva um poema triste
e me permitam chorar de dor,
de verdadeira dor
E não me digam "se cure",
ou que "isso vai passar"
- Porque não vai.
Não me digam para sorrir
porque é isso que vai lhe agradar;
[ou que é melhor que eu compartilhe tristeza
do que as minhas alegrias]
porque viver é sentir dor,
elogiar as cicatrizes
e cuidar das chagas.
É antes de tudo uma batalha infinda
que não nos deixa tomar fôlego,
que cobra cotidianamente,
que esmaga com ferocidade
e pilha, e destrói, e sufoca
E ainda assim cobra um sorriso.
Foda-se.
Hoje eu não quero sorrir.
(Fabrício de Queiroz)
Esse é um poema violento.
Hoje eu não quero sorrir
Deixem-me confortável em minha solidão,
não tentem apagar minha expressão vazia
ou maldizer meus amigos que não consolam,
ou não me chamam para sair
tomar uma cerveja, expor-se:
viver.
Não discriminem sequer a minha tristeza
que me aplaca o espírito,
enquanto digo a todos que estou bem
e feliz.
Deixem que eu fuja por alguns instantes
da ditadura revolucionária da felicidade,
escreva um poema triste
e me permitam chorar de dor,
de verdadeira dor
E não me digam "se cure",
ou que "isso vai passar"
- Porque não vai.
Não me digam para sorrir
porque é isso que vai lhe agradar;
[ou que é melhor que eu compartilhe tristeza
do que as minhas alegrias]
porque viver é sentir dor,
elogiar as cicatrizes
e cuidar das chagas.
É antes de tudo uma batalha infinda
que não nos deixa tomar fôlego,
que cobra cotidianamente,
que esmaga com ferocidade
e pilha, e destrói, e sufoca
E ainda assim cobra um sorriso.
Foda-se.
Hoje eu não quero sorrir.
(Fabrício de Queiroz)
sexta-feira, 17 de abril de 2015
À nossa saudade
Mar de sentimentos - Leonid Afremov
À nossa saudade
A nossa saudade transgride os poros,
exaura na perversão da distância
seus odores ainda de ontem,
atinge olhos desacostumados com a ausência.
Calada está a manhã de Terça,
que passa vagarosa na imensidão.
Meus lençóis contam a sua história
e o tempo, eu juro, dilatou-se.
A nossa saudade rompe a carne,
agride o tempo e faz curvar a poesia,
que assiste quieta a memória dos corpos,
que versa triste nossa ansiedade,
que não soube se contentar com o desejo
e derramou-se nesta folha:
sem o teu cheiro,
sem o teu sorriso.
(Fabrício de Queiroz)
À nossa saudade
A nossa saudade transgride os poros,
exaura na perversão da distância
seus odores ainda de ontem,
atinge olhos desacostumados com a ausência.
Calada está a manhã de Terça,
que passa vagarosa na imensidão.
Meus lençóis contam a sua história
e o tempo, eu juro, dilatou-se.
A nossa saudade rompe a carne,
agride o tempo e faz curvar a poesia,
que assiste quieta a memória dos corpos,
que versa triste nossa ansiedade,
que não soube se contentar com o desejo
e derramou-se nesta folha:
sem o teu cheiro,
sem o teu sorriso.
(Fabrício de Queiroz)
quinta-feira, 12 de março de 2015
Reação
A jovem brigada Szybkościowcy - Helena Krajewska
Não há símbolo ou bomba que nos pare.
Reação
As bombas estão de braços abertos à nossa marcha,
os gases procuram amordaçar nosso grito,
a pancada sobe e desce pela farda suja de sangue;
de joelhos imploramos a misericórdia,
que não há - é em vão.
Devemos revidar, em violência e de forma organizada;
rasgar as fardas,
tomar as bombas,
erguer-se do chão.
(Fabrício de Queiroz)
Não há símbolo ou bomba que nos pare.
Reação
As bombas estão de braços abertos à nossa marcha,
os gases procuram amordaçar nosso grito,
a pancada sobe e desce pela farda suja de sangue;
de joelhos imploramos a misericórdia,
que não há - é em vão.
Devemos revidar, em violência e de forma organizada;
rasgar as fardas,
tomar as bombas,
erguer-se do chão.
(Fabrício de Queiroz)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Não
Trabalhadores a caminho de casa - Edvard Munch
Não
Não é esta rotina que desejo.
Não é esta bota vencida,
desbotada e surrada pelo asfalto
que me faz homem - não.
Não é a longa jornada de labuta
que me dignifica, nem este dinheiro
pouco que pego todo final de mês
e consumo para a subsitência.
O que quero é caminhar lá fora de chinelo,
deixar de receber os farelos da exploração,
dizer não aos que vão à praia na Segunda
e brincar com meus filhos na calçada.
Quero pegar a estrada em um mundo comum
- não de poucos - sem pedágios
ou expressões pesadas a me encarar,
sem destino, sem cercados.
(Fabrício de Queiroz)
85 pessoas detêm 46% da riqueza mundial. Neste momento estão em seus iates, ilhas, jatinhos... Ou seja lá o que caralho façam com o fruto da exploração.
Não
Não é esta rotina que desejo.
Não é esta bota vencida,
desbotada e surrada pelo asfalto
que me faz homem - não.
Não é a longa jornada de labuta
que me dignifica, nem este dinheiro
pouco que pego todo final de mês
e consumo para a subsitência.
O que quero é caminhar lá fora de chinelo,
deixar de receber os farelos da exploração,
dizer não aos que vão à praia na Segunda
e brincar com meus filhos na calçada.
Quero pegar a estrada em um mundo comum
- não de poucos - sem pedágios
ou expressões pesadas a me encarar,
sem destino, sem cercados.
(Fabrício de Queiroz)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Camaradas
Manifestação - Antonio Berni
Todos os dias uma de nossas bocas é silenciada, mas acendemos outras mil. Todos os dias tentam nos convencer da utopia de nossa luta, mas nos sustentamos na inevitabilidade da vitória. Conosco é assim: a cada cabeça baixa, dez mãos nos amparam o queixo; a cada sinal de fadiga alguém liga o rádio, escutamos o hino e retornamos revigorados.
Camaradas
Hoje mais do que nunca é pela
geração futura que lutamos.
pelos que estão no colo e nas barrigas
que levantamos nossa bandeira vermelha
e mantemos nosso punho em riste.
Pela certeza da vitória que conferenciamos
aos camaradas sobre o nosso fervor;
que não se trata de fé,
mas de concreto trabalho que assenta
o mundo com o lençol da esperança.
É no sorriso das crianças que mantemos
nossas fibras imperturbáveis, inabaláveis.
No companheirismo das camaradas
que aprendemos que o egoísmo não é lei;
no seu fervor militante é que nos formamos gente
e nos surpreendemos felizes.
À tarefa que se mostra árdua
a toda dor silencia:
seguimos viagem a passos de gigante
e nossa principal virtude não é o heroísmo,
mas a camaradagem.
(Fabrício de Queiroz)
Todos os dias uma de nossas bocas é silenciada, mas acendemos outras mil. Todos os dias tentam nos convencer da utopia de nossa luta, mas nos sustentamos na inevitabilidade da vitória. Conosco é assim: a cada cabeça baixa, dez mãos nos amparam o queixo; a cada sinal de fadiga alguém liga o rádio, escutamos o hino e retornamos revigorados.
Camaradas
Hoje mais do que nunca é pela
geração futura que lutamos.
pelos que estão no colo e nas barrigas
que levantamos nossa bandeira vermelha
e mantemos nosso punho em riste.
Pela certeza da vitória que conferenciamos
aos camaradas sobre o nosso fervor;
que não se trata de fé,
mas de concreto trabalho que assenta
o mundo com o lençol da esperança.
É no sorriso das crianças que mantemos
nossas fibras imperturbáveis, inabaláveis.
No companheirismo das camaradas
que aprendemos que o egoísmo não é lei;
no seu fervor militante é que nos formamos gente
e nos surpreendemos felizes.
À tarefa que se mostra árdua
a toda dor silencia:
seguimos viagem a passos de gigante
e nossa principal virtude não é o heroísmo,
mas a camaradagem.
(Fabrício de Queiroz)
sábado, 29 de novembro de 2014
Sossego
Domingo - Edward Hopper
Meu pescoço já se curva como o dos mais velhos. Já não tenho memória, nem filhos.
Sossego
Um pouco de mim ficou nesta sala.
O sorriso na fotografia desbotada,
a peça de porcelana que brinca
ao lado do aquário das aranhas,
o fungo brotando das quinas
e este odor permanente de mar.
De mim ficaram as lições,
os manuscritos inacabados,
um armário cheio de pequenos prazeres:
postais, miniaturas e outras criancices;
conchinhas de várias praias do mundo
e um poema de Sosígenes lido para todos os mares.
De mim certamente lembrarão da tosse,
dos remédios vencidos na gaveta
que por teimosia não tomei,
da saudade dos lugares que fui,
da insistência no belo
e da persistência no impossível.
(Fabrício de Queiroz)
Meu pescoço já se curva como o dos mais velhos. Já não tenho memória, nem filhos.
Sossego
Um pouco de mim ficou nesta sala.
O sorriso na fotografia desbotada,
a peça de porcelana que brinca
ao lado do aquário das aranhas,
o fungo brotando das quinas
e este odor permanente de mar.
De mim ficaram as lições,
os manuscritos inacabados,
um armário cheio de pequenos prazeres:
postais, miniaturas e outras criancices;
conchinhas de várias praias do mundo
e um poema de Sosígenes lido para todos os mares.
De mim certamente lembrarão da tosse,
dos remédios vencidos na gaveta
que por teimosia não tomei,
da saudade dos lugares que fui,
da insistência no belo
e da persistência no impossível.
(Fabrício de Queiroz)
domingo, 28 de setembro de 2014
Neoliberal
Coleção -Tetsuya Ishida
...
Neoliberal
Pra mim você é lucro.
A roupa que veste
a cama que adoece
os sorrisos
o abraço
e o luto.
Pra mim você é lucro.
A força de trabalho
os seus filhos
a sua esposa
a traição
e até mesmo a doença que lhe causo.
Pra mim você é lucro.
O que você come
o que você fala
o que vê
o que sente
e os seus desejos mais íntimos.
Pra mim você é lucro.
Na educação
na alegria
e na tristeza
no passado
e na ingratidão
o seu pão
a sua mobília
o lixo
o desperdício
o avião
as árvores
as plantas
o fugitivo
as prisões
a sua saúde
o defunto
a terra
a água
o ar
a natureza
e a fé.
Tudo que faz da sua vida
uma vida: pra mim é lucro.
(Fabrício de Queiroz)
...
Neoliberal
Pra mim você é lucro.
A roupa que veste
a cama que adoece
os sorrisos
o abraço
e o luto.
Pra mim você é lucro.
A força de trabalho
os seus filhos
a sua esposa
a traição
e até mesmo a doença que lhe causo.
Pra mim você é lucro.
O que você come
o que você fala
o que vê
o que sente
e os seus desejos mais íntimos.
Pra mim você é lucro.
Na educação
na alegria
e na tristeza
no passado
e na ingratidão
o seu pão
a sua mobília
o lixo
o desperdício
o avião
as árvores
as plantas
o fugitivo
as prisões
a sua saúde
o defunto
a terra
a água
o ar
a natureza
e a fé.
Tudo que faz da sua vida
uma vida: pra mim é lucro.
(Fabrício de Queiroz)
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Descrédito
Sem título - Tetsuya Ishida
As vezes me pergunto se já não estamos vivendo a barbárie.
Descrédito
Desacreditei de tudo,
dos sonhos
dos anos
das conquistas.
Enfim, desacreditei da vida,
das coisas simples
dos abraços
dos sorrisos,
desacreditei até da esperança,
que recebe meu corpo
de braços abertos,
desacreditado na mansidão.
Desacreditei do salário,
da família
da rotina
e - há muito - do capitalismo.
Desacreditei de mim,
dos passos adiante
das siglas
da democracia
do sim
do não
do talvez
e sobretudo das certezas.
Desacreditei dos hinos,
do nacionalismo
do mundialismo
dos votos
e da eleição.
Desacreditei das verdades,
dos conceitos
dos anseios
do Redentor
e da salvação.
Desacreditei das horas vagas,
dos bares
dos amigos
das curas
do companheirismo.
E de tanto desacreditar
estive a beira do suicídio,
mas desacreditei da morte,
do Paraíso.
(Fabrício de Queiroz)
As vezes me pergunto se já não estamos vivendo a barbárie.
Descrédito
Desacreditei de tudo,
dos sonhos
dos anos
das conquistas.
Enfim, desacreditei da vida,
das coisas simples
dos abraços
dos sorrisos,
desacreditei até da esperança,
que recebe meu corpo
de braços abertos,
desacreditado na mansidão.
Desacreditei do salário,
da família
da rotina
e - há muito - do capitalismo.
Desacreditei de mim,
dos passos adiante
das siglas
da democracia
do sim
do não
do talvez
e sobretudo das certezas.
Desacreditei dos hinos,
do nacionalismo
do mundialismo
dos votos
e da eleição.
Desacreditei das verdades,
dos conceitos
dos anseios
do Redentor
e da salvação.
Desacreditei das horas vagas,
dos bares
dos amigos
das curas
do companheirismo.
E de tanto desacreditar
estive a beira do suicídio,
mas desacreditei da morte,
do Paraíso.
(Fabrício de Queiroz)
domingo, 20 de julho de 2014
Impressão
Nômades Amantes do Tempo - Bruno Steinbach
Para aquele gostar, constantemente a beira da explosão e que se renova a cada segundo.
Impressão
KP
Em mim, os teus cheiros;
tatuados nos polegares,
circunscrito nas articulações.
Nenhum Domingo seria o mesmo.
No quarto, as tuas impressões;
o lençol borrado de suor,
teu desenho preso num canto.
No varal, símbolos da indecência.
A cidade implora tua presença,
o meu corpo chora sua ausência.
Na medida em que tudo me lembra você,
nada pode ser legitimamente meu.
Mas meu bem, não fiquemos tristes:
logo vamos nos encontrar na mansidão,
naquele sonho somente nosso,
naquele toque digital do nosso gostar.
(Fabrício de Queiroz)
Para aquele gostar, constantemente a beira da explosão e que se renova a cada segundo.
Impressão
KP
Em mim, os teus cheiros;
tatuados nos polegares,
circunscrito nas articulações.
Nenhum Domingo seria o mesmo.
No quarto, as tuas impressões;
o lençol borrado de suor,
teu desenho preso num canto.
No varal, símbolos da indecência.
A cidade implora tua presença,
o meu corpo chora sua ausência.
Na medida em que tudo me lembra você,
nada pode ser legitimamente meu.
Mas meu bem, não fiquemos tristes:
logo vamos nos encontrar na mansidão,
naquele sonho somente nosso,
naquele toque digital do nosso gostar.
(Fabrício de Queiroz)
terça-feira, 15 de julho de 2014
Consumação
Carcaça bovina - Chaim Soutine
Consumação
Ao meu enterro irão as prostitutas.
As velas serão velhos sacos de supermercado,
a sobremesa será servida aos urubus,
que partirão fartos.
O velho padre foi embora há tempos,
restaram os oprimidos e os silenciosos,
os covardes e os criminosos,
que permanecem saciados na amplidão.
O caixão não será de cedro,
mas das caixas de feira,
cujas frutas podres
alimentarão os porcos.
Consumado e extinto,
alimentarei um forno
enferrujado e partirei,
às cinzas.
(Fabrício de Queiroz)
"Um homem feliz é aquele que durante o dia, devido ao seu trabalho, e à noite, devido ao seu cansaço, não tem tempo para pensar em suas coisas." (Gary Cooper)
Consumação
Ao meu enterro irão as prostitutas.
As velas serão velhos sacos de supermercado,
a sobremesa será servida aos urubus,
que partirão fartos.
O velho padre foi embora há tempos,
restaram os oprimidos e os silenciosos,
os covardes e os criminosos,
que permanecem saciados na amplidão.
O caixão não será de cedro,
mas das caixas de feira,
cujas frutas podres
alimentarão os porcos.
Consumado e extinto,
alimentarei um forno
enferrujado e partirei,
às cinzas.
(Fabrício de Queiroz)
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Copa
Dano à propriedade - João Werner
Não consigo comemorar 150.000 remoções e 9 mortes.
Copa
Ainda não fiz um poema para este mês,
Julho me esqueceu e os seus dedos não são de lã.
Nenhuma aurora me saudou à sua perfeição,
minhas sandálias envelhecidas
denunciam o descuido de mim.
Fã do futebol, não há glória na bola rolando,
ou nos trabalhadores que morreram amassados
pelo viés de sua construção,
ou nas famílias que choram
os tijolos derrubados.
Cansado da cidade - carregada de idiomas em suas areias,
poluída pela convenção do absurdo,
anestesiada em verde e amarelo - caminho só,
como se Julho tivesse me arrancado das convenções,
punido meu sorriso reticente com um forçado
contrato de esquecimento e solidão.
(Fabrício de Queiroz)
Não consigo comemorar 150.000 remoções e 9 mortes.
Copa
Ainda não fiz um poema para este mês,
Julho me esqueceu e os seus dedos não são de lã.
Nenhuma aurora me saudou à sua perfeição,
minhas sandálias envelhecidas
denunciam o descuido de mim.
Fã do futebol, não há glória na bola rolando,
ou nos trabalhadores que morreram amassados
pelo viés de sua construção,
ou nas famílias que choram
os tijolos derrubados.
Cansado da cidade - carregada de idiomas em suas areias,
poluída pela convenção do absurdo,
anestesiada em verde e amarelo - caminho só,
como se Julho tivesse me arrancado das convenções,
punido meu sorriso reticente com um forçado
contrato de esquecimento e solidão.
(Fabrício de Queiroz)
domingo, 8 de junho de 2014
Enigmático
Ela se foi - Leonid Afremov
Antes que seja tarde para dizer: saudade.
Enigmático
Nos olhamos longamente pela madrugada,
que ofereceu o seu semblante enigmático.
Enjaulado em seu corpo, suspirei destinos
e lhe aprisionei em meus braços para nunca mais.
Estamos aqui nestes sinais que louvamos,
na saudade que em comum cultivamos
e nos dizemos tanto antes de dormir
- não descansamos nem ao acordar.
Hoje resolvi chorar à sua ausência.
Perscrutar cada polegada de onde esteve
e me imaginar pernoitando em seu corpo
- pleno de riscos e desejos;
como naqueles dias de Maio,
onde nada foi como antes
e me ficou uma ansiedade
castigada de aromas teus.
(Fabrício de Queiroz)
Antes que seja tarde para dizer: saudade.
Enigmático
Nos olhamos longamente pela madrugada,
que ofereceu o seu semblante enigmático.
Enjaulado em seu corpo, suspirei destinos
e lhe aprisionei em meus braços para nunca mais.
Estamos aqui nestes sinais que louvamos,
na saudade que em comum cultivamos
e nos dizemos tanto antes de dormir
- não descansamos nem ao acordar.
Hoje resolvi chorar à sua ausência.
Perscrutar cada polegada de onde esteve
e me imaginar pernoitando em seu corpo
- pleno de riscos e desejos;
como naqueles dias de Maio,
onde nada foi como antes
e me ficou uma ansiedade
castigada de aromas teus.
(Fabrício de Queiroz)
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Indizível
Freshness of cold - Leonid Afremov
Não. Eu não me vendi aos seus abraços. A estes me doei livremente, gratuitamente. Se paguei por algo, foram as notas da saudade cotidiana, cuja pequena amostra está rabiscada em poesia.
Indizível
para Karol
Vestido de uma pele de cores indizíveis
carrego seu nome num altar.
Esforço-me para traduzir esta saudade
sem fundamento - esperança arqueada
em razões já passadas. Esqueci
da felicidade que batia na porta
triste, em minha cama de
feltro e cetim vermelho.
De todas as respostas, só tua mão
me encontrou na escuridão,
só teu apego a tudo que
fosse intenso - e espontâneo.
Espero que não vá embora.
Que esta continue sendo a nossa
porta, e que se abra para o horizonte
de nossos desejos comuns,
que se abra para aquelas coisas indizíveis,
que façamos do inexplicável o nosso hino
e que mandemos tudo às traças
com o aperto do nosso abraço...
(Fabrício de Queiroz)
Não. Eu não me vendi aos seus abraços. A estes me doei livremente, gratuitamente. Se paguei por algo, foram as notas da saudade cotidiana, cuja pequena amostra está rabiscada em poesia.
Indizível
para Karol
Vestido de uma pele de cores indizíveis
carrego seu nome num altar.
Esforço-me para traduzir esta saudade
sem fundamento - esperança arqueada
em razões já passadas. Esqueci
da felicidade que batia na porta
triste, em minha cama de
feltro e cetim vermelho.
De todas as respostas, só tua mão
me encontrou na escuridão,
só teu apego a tudo que
fosse intenso - e espontâneo.
Espero que não vá embora.
Que esta continue sendo a nossa
porta, e que se abra para o horizonte
de nossos desejos comuns,
que se abra para aquelas coisas indizíveis,
que façamos do inexplicável o nosso hino
e que mandemos tudo às traças
com o aperto do nosso abraço...
(Fabrício de Queiroz)
domingo, 27 de abril de 2014
Modernidade
Meu Pai no Katz's - Max Ferguson
Modernidade
Contradisse a felicidade em
todos os milímetros da existência.
Com as ausências, foi especialista
em lidar e dizem que nunca chorou.
Achou fôlego no conturbado
da vida para amar,
mas nunca se deixou livre,
despencando com os céus no horizonte.
Sobre as rimas disse pouco
e só os familiares irão lembrar.
Escreveu o nome do seu amor
numa fotografia que jaz, desbotada.
Viveu das incertezas, mas nunca
abriu mão das intensidades.
Resistiu incólume ao álbum da vida
e partiu sem dizer obrigado.
(Fabrício de Queiroz)
Posso lembrar a vida pelas paredes. Recordo duma branca pontilhada de vermelho, acerolas arremessadas em brincadeiras infantis. Já tive um quarto verde, a cor do meu time. Já tive um quarto cinza, época de funestas artes mágicas. Paredes brancas, com a marca do meu suor em vários pontos do ambiente. Hoje tenho uma rosa, que já encontrei assim.
Em todos os casos me acompanha uma xícara de café e um lápis ansioso por marcar a página branca e dizer: "ainda estou aqui".
Modernidade
Contradisse a felicidade em
todos os milímetros da existência.
Com as ausências, foi especialista
em lidar e dizem que nunca chorou.
Achou fôlego no conturbado
da vida para amar,
mas nunca se deixou livre,
despencando com os céus no horizonte.
Sobre as rimas disse pouco
e só os familiares irão lembrar.
Escreveu o nome do seu amor
numa fotografia que jaz, desbotada.
Viveu das incertezas, mas nunca
abriu mão das intensidades.
Resistiu incólume ao álbum da vida
e partiu sem dizer obrigado.
(Fabrício de Queiroz)
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