O pardal e o falcão - Jack Vettriano
A paixão fez com que eu me livrasse de todas as suas coisas e memórias.
Só não me livrei dos seus textos.
O que ficou
Numa fronha vencida, ainda dorme um fio vermelho
corroído pelas aspirações duma saudade de Abril.
Dorme também todo aquele chamego, que me lavou
numa quinta esquecida pelo calendário.
As suas coisas ficaram no armário, enquanto
me vendia à simplicidade do seu sorriso.
O seu transpiro ainda inunda o meu paladar
e, de todas as coisas, o que ficou foi o gemido.
(Fabrício de Queiroz Venâncio)
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Degola
A verdadeira definição do esporte - Rebecca Dreifuss
A miséria, que banaliza a miséria, que banaliza a miséria, que banaliza a miséria... E ainda chamam de desperdício.
Degola
As minhas virtudes foram vencidas pelo cansaço,
sumariamente degoladas pela foice do desperdício
e atacada pelos vermes vorazes da imensidão.
Neste imenso ficou preso o meu grito,
prato feito à repressão hedionda das esquinas
e dos olhos lascados incapazes ao perdão.
De todas as tralhas de asfaltos carcomidos,
remoídos por rachaduras em forma de epiderme,
sobrou o vosso canto sabiá sem réstia.
De todos os poços azedos alugados aos mendigos,
secos ao paradoxo da abundância vespertina,
beberam os miseráveis e as prostitutas;
do seu caldo espremido lamberam os dedos,
comeram as falanges e cuspiram restos de unha
na cara das esquinas encharcadas de gente.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
A miséria, que banaliza a miséria, que banaliza a miséria, que banaliza a miséria... E ainda chamam de desperdício.
Degola
As minhas virtudes foram vencidas pelo cansaço,
sumariamente degoladas pela foice do desperdício
e atacada pelos vermes vorazes da imensidão.
Neste imenso ficou preso o meu grito,
prato feito à repressão hedionda das esquinas
e dos olhos lascados incapazes ao perdão.
De todas as tralhas de asfaltos carcomidos,
remoídos por rachaduras em forma de epiderme,
sobrou o vosso canto sabiá sem réstia.
De todos os poços azedos alugados aos mendigos,
secos ao paradoxo da abundância vespertina,
beberam os miseráveis e as prostitutas;
do seu caldo espremido lamberam os dedos,
comeram as falanges e cuspiram restos de unha
na cara das esquinas encharcadas de gente.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
domingo, 21 de julho de 2013
Susto (ou tudo num só)
Loucura - Maurice Utrillo
Ato involuntário, prendemos a respiração tanto no susto quanto na admiração.
Susto (ou tudo num só)
Só uma confusão de letras,
um abismo intransponível
na beira de um matagal
afogado pela fuligem do tempo,
sufocado pelo pó,
amarrado pelo pé
e vencido pelo ritmo
afoito das canções arredias.
Por sanguessugas invadido
e lobotomizado por inversos
arredios, banalizado pelo trunfo
da última carta na manga,
durante a última jogada
de uma pequena vida,
medida numa fita de costura
e equilibrada no fio de uma faca.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
Ato involuntário, prendemos a respiração tanto no susto quanto na admiração.
Susto (ou tudo num só)
Só uma confusão de letras,
um abismo intransponível
na beira de um matagal
afogado pela fuligem do tempo,
sufocado pelo pó,
amarrado pelo pé
e vencido pelo ritmo
afoito das canções arredias.
Por sanguessugas invadido
e lobotomizado por inversos
arredios, banalizado pelo trunfo
da última carta na manga,
durante a última jogada
de uma pequena vida,
medida numa fita de costura
e equilibrada no fio de uma faca.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Obrigado pelo seu tempo
Toda riqueza provém da violência - João Werner
Mostre o seu sorriso que lhe vendo meus porcos e cavalos.
Obrigado pelo seu tempo
A violência está acomodada nos hospitais,
nas longas filas da espera
e no pouco que ainda versa a esperança
cristalizada em barrigas vazias.
A violência está velada nas fábricas,
está junto daqueles que assinam suas digitais,
nas doenças de esforço da mão
e na idenização que recebe a família.
Está na desigualdade,
nas generalizações,
na mídia porca,
no vagabundo pedinte
e na criança que esfarela o chão.
Está sendo velada pelos garotos de rua,
idolatrada pelos paletós da nação,
lambida pelos que tem fome.
Nossos meninos gritam nas ruas:
talvez um dia encontrem a violência
amedrontada em um canto qualquer.
Nossas meninas gritam nas ruas
e isto não foi um poema.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
terça-feira, 11 de junho de 2013
Poema de inverno
Paisagem - Ivan Pinto
Estou cansado da superficialidade em tudo!
Poema de inverno
Na boca, vapores de uma embriaguez permanente.
Os olhos lânguidos molhados de saudade
e um odor diferente do cigarro habitual.
Todo inverno chove nossa canção;
o amor está a venda nas prateleiras.
Todos os passos convergem para ti,
com um bilhete fácil de ida e um caminho reto,
sigo sozinho na eternidade do seu corpo.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
Estou cansado da superficialidade em tudo!
Poema de inverno
Na boca, vapores de uma embriaguez permanente.
Os olhos lânguidos molhados de saudade
e um odor diferente do cigarro habitual.
Todo inverno chove nossa canção;
o amor está a venda nas prateleiras.
Todos os passos convergem para ti,
com um bilhete fácil de ida e um caminho reto,
sigo sozinho na eternidade do seu corpo.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Teologia
Ansiedade - Edvard Munch
De joelhos.
Teologia
Os prédios que engolem gente
vomitam os vapores do amanhã.
De repente, entre vidro e fumaça
cortante, entre odisséias abortadas
e homens perdidos na multidão,
um pássaro canta.
O Sol se apresenta nos selos
de cartas velhas escritas a punho.
Centenas de histórias ficaram
em restos de borracha varrida,
soprada pelo vento de cada esquina
onde todo mundo tem sede - e fome.
Nas fontes, as bolhas do detergente
alimentam crianças ocas.
Nos vidros, a gordura do dia
captura muriçocas e mosquitos da dengue;
incólumes, ameaçam o subúrbio
e sobrevivem aos restos anais.
Incólume, o pássaro ainda canta
à criança do sorriso sem dentes.
Oremos: ainda não colocaram um cadeado
na caixa da esperança,
que se afoga nas gravatas da nação
e na fuligem do concreto.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
De joelhos.
Teologia
Os prédios que engolem gente
vomitam os vapores do amanhã.
De repente, entre vidro e fumaça
cortante, entre odisséias abortadas
e homens perdidos na multidão,
um pássaro canta.
O Sol se apresenta nos selos
de cartas velhas escritas a punho.
Centenas de histórias ficaram
em restos de borracha varrida,
soprada pelo vento de cada esquina
onde todo mundo tem sede - e fome.
Nas fontes, as bolhas do detergente
alimentam crianças ocas.
Nos vidros, a gordura do dia
captura muriçocas e mosquitos da dengue;
incólumes, ameaçam o subúrbio
e sobrevivem aos restos anais.
Incólume, o pássaro ainda canta
à criança do sorriso sem dentes.
Oremos: ainda não colocaram um cadeado
na caixa da esperança,
que se afoga nas gravatas da nação
e na fuligem do concreto.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
domingo, 14 de abril de 2013
Página em branco
Meio dia - Edward Hopper
As várias histórias de uma paisagem. As várias paisagens que passamos todos os dias.
Página em branco
Seus pais separaram-se quando tinha quinze;
seus amigos casaram-se com belas senhoras
e o cachorro morreu de tosse.
Num belo dia colorido, a vida lhe passa a página.
Conhecemos a morte e levamos a vida desleixada,
amamos demais o amor verdadeiro e sincero.
Fizemos sexo a níveis industriais
e o peito de nossa mãe há muito está seco.
Nossos sonhos se perderam com a idade,
a caridade foi substituída pela gula.
Nunca há tempo de consertar o mundo
e o "eu" é o único pronome que a vida escreve.
Dentro de casa as pinturas lhe censuram,
as flores murcham e o único odor é o do câncer:
de repente você faz parte dos idosos.
Abre o livro dos dias e passa páginas brancas de saudade,
enquanto, em ondulações, escorre a lágrima
e surge a última alvorada cinzenta.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
As várias histórias de uma paisagem. As várias paisagens que passamos todos os dias.
Página em branco
Seus pais separaram-se quando tinha quinze;
seus amigos casaram-se com belas senhoras
e o cachorro morreu de tosse.
Num belo dia colorido, a vida lhe passa a página.
Conhecemos a morte e levamos a vida desleixada,
amamos demais o amor verdadeiro e sincero.
Fizemos sexo a níveis industriais
e o peito de nossa mãe há muito está seco.
Nossos sonhos se perderam com a idade,
a caridade foi substituída pela gula.
Nunca há tempo de consertar o mundo
e o "eu" é o único pronome que a vida escreve.
Dentro de casa as pinturas lhe censuram,
as flores murcham e o único odor é o do câncer:
de repente você faz parte dos idosos.
Abre o livro dos dias e passa páginas brancas de saudade,
enquanto, em ondulações, escorre a lágrima
e surge a última alvorada cinzenta.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 15 de março de 2013
Despedida
A Violinista - Josef Decamp
Despedida
às mulheres da minha vida
Estes montes são feitos de açúcar.
Estas praias, juro, são doces
e a areia não machuca os pés.
Estes caracóis um dia hão de me enforcar.
Por enquanto conto-os ao som de ondas
ou do vestido branco esquecido sob a lua.
A memória é atiçada por um vento do mar.
A saudade é um corvo de olhos esbugalhados
que corta os vales e me ceifa num abraço.
Estas são as últimas horas de uma mente sã.
Depois do álcool será zumbido, sexo e solidão:
de você sobrarão diversas lacunas de saudade.
Esta será a última despedia da manhã.
Choraremos juntos, irei caminhar na praia
e soluçar todos os seus nomes ao vento.
No futuro perguntarão se ainda te amo.
Sempre esquivo, responderei
que de amar nunca deixamos.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
Ajudei a menina com a cicatriz a vestir suas sandálias. Eu gosto de pés. Ela fingiu indiferença à gentileza e eu valorizei o esforço do seu disfarce. Depois de alguns beijos, colocamos nossas máscaras de porcelana e fomos separando nossas mãos bem devagar. Aproveitei para olhar as linhas da sua mão direita e medir o seu e o nosso futuro. O adeus caloroso ficou para as novelas.
Não houve choro. Cada um para o seu lado. O que houve foi um troca de corações pesados em uma bandeja quente.
às mulheres da minha vida
Estes montes são feitos de açúcar.
Estas praias, juro, são doces
e a areia não machuca os pés.
Estes caracóis um dia hão de me enforcar.
Por enquanto conto-os ao som de ondas
ou do vestido branco esquecido sob a lua.
A memória é atiçada por um vento do mar.
A saudade é um corvo de olhos esbugalhados
que corta os vales e me ceifa num abraço.
Estas são as últimas horas de uma mente sã.
Depois do álcool será zumbido, sexo e solidão:
de você sobrarão diversas lacunas de saudade.
Esta será a última despedia da manhã.
Choraremos juntos, irei caminhar na praia
e soluçar todos os seus nomes ao vento.
No futuro perguntarão se ainda te amo.
Sempre esquivo, responderei
que de amar nunca deixamos.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Os dedos
Jack Vettriano - O assessor
Os dedos
Para Alexandre Coutinho
De todos os dedos,
o dedo que escorre
entrelaçado de banho quente
e prenhe de vontades.
De todos os corpos,
aquele que beijou
em sabonete - escorre;
derrama o pecado nas coxas.
Idioma dos cabelos,
ervas coloridas;
aroma de tu só
e solos de jazz.
Uma canção gira na
sintonia de nós mesmos:
respiração metamórfica que
vibra, vibra e vibra.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
O livro "Estudos do corpo" (7Letras, 2011) de Alexandre Coutrinho é uma recente e grata surpresa, que pequei em não ter lido antes.
Posso dividir em duas parte. A primeira é erótica e remonta aos desejos e aos atos. São vários fôlegos de uma leitura densa que aperta em caprichos, que convida à visitação das memórias mais íntimas. A segunda é erótica também, mas musical. Fiz a leitura desta seção numa única investida ao livro, escutando jazz do gênero Smooth e parando bastante para pensar. Fiquei lavado por estas sensações.
Ao ler "Eclipse" comecei a escrever um poema, que terminei algum tempo depois.
Os dedos
Para Alexandre Coutinho
De todos os dedos,
o dedo que escorre
entrelaçado de banho quente
e prenhe de vontades.
De todos os corpos,
aquele que beijou
em sabonete - escorre;
derrama o pecado nas coxas.
Idioma dos cabelos,
ervas coloridas;
aroma de tu só
e solos de jazz.
Uma canção gira na
sintonia de nós mesmos:
respiração metamórfica que
vibra, vibra e vibra.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Estudo da carne
A pele do coelho esfolado - Chaim Soutine
Estudo da carne
Esperança vã
consolo
temperança.
A princesa descorada
cavalga só
um cavalo manso.
Alfinetadas na bunda
projétil de imensidão.
Saudade só
doença sã.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
Canibal, começou devorando os dedinhos dos pés. Do pé direito, que não tinha marca de nascença. Seguiu pela carne interna das coxas e se engasgou ao engolir os pêlos finos. Não se importou com os gritos da dor; aos seus ouvidos, soava melodia. Eliminou a gordurinha acumulada na barriga com dentes afiados. Com uma única tacada arrancou um mamilo e fez churrasco de pescoço. Cheiro de carne queimada. A melodia tropeçou no engasgo. Completou a refeição com bochechas e lábios. Cortou o clitóris com a unha e serviu-se empanado. Na beira da cama, um cabernet sauvignon barato para engolir tudo. Sem tosse.
Estudo da carne
Esperança vã
consolo
temperança.
A princesa descorada
cavalga só
um cavalo manso.
Alfinetadas na bunda
projétil de imensidão.
Saudade só
doença sã.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Estações
Calma. Só mais um verão.
Estações
A minha saudade tem sermões fictícios;
liga pela manhã e me espera à tarde.
Durante a noite estou encolhido.
Partiu com a ansiedade engolida;
eu com duas cervejas,
você se fazendo de tímida.
Sentou-se numa primavera quente,
deixou dois beijos na bochecha
e rodou um filme sobre horas vagas.
Ainda só no verão te espero;
todo quente, vocifero desejos
e beijo cangotes à toa.
No outono esqueço entre saias,
no inverno me agasalho em vapores pueris.
Na primavera estou mansinho.
Alguns retratos e tudo desmorona:
a foto é o carma da paixão
e o meu coração não é de confiança.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Digestão
O quarto - Vicent Van Gogh
Em cada canto uma fotografia antiga. Sobre a mesa, um vinho chamado ausência.
Chá mate entrecortado por restos de cravinho, para as noites de calor.
E Fleetwood Mac para o coração.
Digestão
A família lhe trocou por um brinquedo novo.
Os amigos de trabalho olham estranho.
Faz tempo que o gozo não frequenta sua cama
e as putas não lhe aguentam mais.
Os colegas de magistério puseram uma pedra em si;
de propósito, você perdeu todas as fotos.
Vive a se gabar de um ócio preguiçoso
enquanto a comida apodrece na geladeira.
Os professores da faculdade lhe esqueceram;
os vizinhos resolveram não se importar.
No meio das roupas empilhadas o telefone é uma agulha
e as amantes não te ligam mais.
De repente você é um objeto do quarto.
Passeia livre pela mobília e se pergunta:
por que lhe trocaram por um tanto de areia?
Por que lhe resumiram a um punhado de pó?
_Fabrício de Queiroz Venâncio
Em cada canto uma fotografia antiga. Sobre a mesa, um vinho chamado ausência.
Chá mate entrecortado por restos de cravinho, para as noites de calor.
E Fleetwood Mac para o coração.
Digestão
A família lhe trocou por um brinquedo novo.
Os amigos de trabalho olham estranho.
Faz tempo que o gozo não frequenta sua cama
e as putas não lhe aguentam mais.
Os colegas de magistério puseram uma pedra em si;
de propósito, você perdeu todas as fotos.
Vive a se gabar de um ócio preguiçoso
enquanto a comida apodrece na geladeira.
Os professores da faculdade lhe esqueceram;
os vizinhos resolveram não se importar.
No meio das roupas empilhadas o telefone é uma agulha
e as amantes não te ligam mais.
De repente você é um objeto do quarto.
Passeia livre pela mobília e se pergunta:
por que lhe trocaram por um tanto de areia?
Por que lhe resumiram a um punhado de pó?
_Fabrício de Queiroz Venâncio
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Fadiga
Os mentirosos - João Luiz Costa
O meu descanso aguarda o seu consenso.
Fadiga
Eu me cansei das manhãs,
do hálito de cerveja,
dos seios passageiros
e dos seixos em minha janela.
Cansei do sexo fácil,
das noites frias,
do olhar incômodo dos vizinhos
e da porta aberta.
Eu me cansei de tudo,
das navalhas,
das narinas,
dos vestidos rosas
e dos ambientes coloridos:
dos sorrisos fáceis.
Eu me cansei do vazio,
do cheio,
dos aromas e odores,
das brisas e furacões
e da saudade passageira.
Cansei do inusitado,
das armadilhas,
do fogo
e do esperado:
das mentiras.
Cansei do amor
e lhe fiz um bolo de cansaço.
Servi uma taça de fadiga
e brindei à fraqueza,
ao marasmo.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
O meu descanso aguarda o seu consenso.
Fadiga
Eu me cansei das manhãs,
do hálito de cerveja,
dos seios passageiros
e dos seixos em minha janela.
Cansei do sexo fácil,
das noites frias,
do olhar incômodo dos vizinhos
e da porta aberta.
Eu me cansei de tudo,
das navalhas,
das narinas,
dos vestidos rosas
e dos ambientes coloridos:
dos sorrisos fáceis.
Eu me cansei do vazio,
do cheio,
dos aromas e odores,
das brisas e furacões
e da saudade passageira.
Cansei do inusitado,
das armadilhas,
do fogo
e do esperado:
das mentiras.
Cansei do amor
e lhe fiz um bolo de cansaço.
Servi uma taça de fadiga
e brindei à fraqueza,
ao marasmo.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Prontidão
Quatro anos de blog.
Quatro anos de solidão e rompimentos, flores cheias e folhas secas: esmaguei todas sem me dar conta das estações.
Prontidão
Entre nós o que ficou foi o silêncio,
abafado pelas horas de gozo.
Ficou um deserto de prazeres apagados
e coitos vencidos pelo cochilo.
Entre nós o que restou foi uma piedade faminta,
devora-se e nos confunde com esse amor.
Restou a ausência recíproca das manhãs
e uma longa vigília de ingratidão e choro.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Fotografia
A sedutora - Jack VettrianoPrometo: vou acordar cedo para guardar em minha memória as fotos de sua despedida.
Fotografia
Antes de partir não esqueça
os meus cheiros e as torradas.
Deixe aquela garrafa vermelha
para que afogue a sua memória.
Antes de partir limpe o chão
com os nossos vômitos de ontem.
Separe alguns lençóis finos
e cubra a minha nudez preguiçosa.
Antes partir abra a janela
e deixe uma foto sobre a cama.
Em papel perfumado com o seu nome
escreva um recado ao meu dia.
Antes de partir, meu amor,
volta cerrar as cortinas.
Deixe sobre a mesa um cesto de beijos
e um adeus, que vou alimentar com poesia.
_Fabrício de Queiroz Venâncio
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