A velhice é muito bonita. Para os velhos parece que o tempo passa diferente, ficando essa sensação impressa no modo calmo como se movem, como falam e se organizam dentro do seu tempo.
Pode ser também que já estejam no aguardo da morte, praticando serenamente a única coisa que lhes resta: as lembranças e os amigos.
O rosto (ou a Balada sem ritmo algum)
A poeira dos carros encharca as rugas virgens do rosto, um olhar lânguido de miopia e carne atenta na paisagem a sua morte.
Tudo lhe parece sinônimo de si: a palha seca, a sopa podre e a gia suada emborcada.
Na cidade o povo canta, os carros passam e ninguém sorri; numa ausência que se mistura à poeira que levanta e mela o rosto.
Tudo já lhe é passado: os jovens, os velhos e este calafrio que arrepia a nuca.
Uma respiração, do outro lado de um muro, nos faz sonhar.
Estalo
Não me apaixono pelas formas, teores, sabores ou aromas, enfim; temperamentos passam longe da primeira vista e tudo que soe longe de sentidos escapam a atração.
Minha sedução está distante de impactos, o sensorial perde vez ao amaranto, à sensação de mistério que perturba ao arrepio e indaga ao silêncio de uma presença.
A percepção se perde e declina, o destino é varrido por um estalo, um comichão perpassa aos cabelos da nuca e a paisagem perde cor, deixa de existir.
Pelo que me apaixono? Se me perguntam digo que foi por um olhar, um sorriso; se me pergunto sou sincero: digo que não sei.
Procurava um sentido em meio
a tantos sentimentos;
Lançava à folha idéias tortas
em códigos,
Para depois desvendá-los...
E veio o zumbido.
Primeiro as idéias fugiram,
Os sentimentos se foram,
Só restou o zumbido.
Procurei aflito pelos cantos
– Mas que zumbido é esse,
que me desconcentra,
me faz amassar o papel,
que causa esse espanto?
Removi a poltrona do lugar,
A TV da estante,
A estante do chão,
O chão foi varrido
(Para ver se encontrava o verme camuflado)
Passado e enxugado.
Ainda assim, ouvia-se o zumbido.
A verdade é que não sabia do que se tratava:
Se era rato ou mosquito,
Garoto ou grunhido,
Se era chiado ou interferência.
Apossei-me do costume
de tudo como verme adjetivar,
De verme lhe classificava,
(praguejava no escuro)
Amaldiçoava o zumbido de nenhum lugar.
Ainda assim persistia, irritava.
Fui para a sala, voltei ao quarto;
Para a cozinha, para a sala...
Suava.
Coloquei som no alto
Cantei como louco, gaiteava
E já até chorava,
Pois o zumbido não sumia.
– Oh! Maldito zumbido de nenhum lugar,
Escuta as minhas súplicas,
Não abra mais as feridas
(já quase supuradas);
Levante de onde estiveres:
Não percebes que já me faz sofrer
tão suficiente quanto os anos?
(Será este zumbido um apelo da consciência?
Um paradoxo à eficiência dos sentimentos?
Uma resposta às idéias tortas?)
Então, num surto, decidi:
– Se é para viver com este zumbido,
se é para na intranqüilidade caminhar,
então levo a vida:
apago o zumbido.
De arma apontada,
Contra a vida tentei...
De olhos abertos me vi:
A página deitada sobre o colo,
A caneta caída pelo chão.
– Será que foi sonho ou zumbido?
ou será que não aconteceu?
Dormia enquanto o primeiro feixe amarelo lhe batia ao seio a manhã escorregava no horizonte encantada em violeta no arfar das oscilações em seus montes desenhava-se uma linha estreita onde o tato voraz ansiava pelos virgens freios.
No topo de seus picos pingava a saliva sedenta em seus vales escorria um suor que não chegava a desaguar na pele quente dedos tamborilavam numa sinfonia em fá olhos gulosos desejavam uma floresta argêntea.
Então o desbravador das serras pôs de lado o medo como cargueiro que se presta ao atraque, observou o seu porto agora, a infinitude do mar de vontades lhe era pouco.
O pecado adentrou nos campos do desejo a vertigem tomou conta, vagarosamente, do corpo e a carne estremeceu na pontualidade de um gozo.