Contudo, freqüentemente me pego perguntando se meu tempo já passou, se sou o grande azarado desta era, mas sei que existem outros por aí e, como costumo dizer, ser diferente está moda... Então, afasto essa idéia. Muitas vezes me divirto e a utilizo como inspiração.
Esse poema tem duas raízes: a primeira está nesse pensamento de "rapaz afastado"; a segunda nas minhas leituras do poeta RuyEspinheira Filho, um dos melhores que o país tem vivo.
Antes do poema, gostaria de lembrar que este blog tem uma proposta fixa e não pretende fugir dela, como a relação entre a imagem e o poema. Não vou revelar tudo, os mais curiosos podem se divertir tentando encontrar as relações existentes entre cada uma das minhas postagens.
Agradecimentos aos poucos leitores.
Idades
O silêncio está enferrujado na dobradiça. Atrás da porta repousa o tempo, na cabeceira está o pó e no pó repousam minhas peças velhas.
O terço foi atacado pelas feras, a cruz tem a ferrugem da descrença; a santa imagem repousa só e seus pés estão descalços.
No chão o retrato das minhas eras, o cabresto que me atém ao luar. Junto à janela a marca do suor, a lembrança do eco de passos no vitral.
As traças me fazem lembrar a vida, os ratos me causam o comichão. Eu, não sou mais que uma saudade carregada por um vento já cansado;
Este poema é uma homenagem para quem me fez dedicou um "selinho": uma nova forma de os usuários de blog prestarem homenagens aos seus leitores e/ou aos blogs que acompanham. Como, pelo modo ao qual escolhi conduzir este blog, não poderia postar um "selinho", fiz um poema e espero que seja feliz em transmitir minha gratidão, mesmo sendo versos de saudade em um quarto escuro.
A imagem é tão famosa quanto um selo é comum e o quanto as cartas, as fotos, os diários, etc., nos fazem lembrar do passado.
Selo
Para Willa Albuquerque
Estava na carta, no blog, na caixa de correio do lar. Estava em minhas mãos, em teu sorriso perdido.
As fotos testemunhavam o silêncio, (a ponta amassada e o cigarro apagado). Em mãos, o selo tremia, borrado de lágrimas e de saudade.
A tinta no papel é velha, as pontuações marcam a essência. O telefone toca e penso: - Será que é ela?
Toda saudade nos faz de tonto: apostamos no impossível, sorrimos às pequenas coisas; quando lambem o selo, quando chega a carta...
Quantas vezes tentamos ficar só e notamos não ser possível? Quando isso se repete, sentimos uma desagradável sensação de sufoco e imploramos para que a Senhora Solidão tenha um pouco de piedade.
As vezes fazemos uma leitura e despertamos para algo que intrinsecamente já nos pertencia. Agora lembro de uma frase do Richard Bach, em Ilusões: “aprender é somente lembrar do que já sabíamos”.
Mas não é a Richard Bach que vai esse texto, mas a Fiódor Dostoievski e ao seu livro Recordações da Casa dos Mortos, onde ele narra sua experiência como preso político numa prisão na Sibéria.
A um monstro da literatura universal que permanece.
A Casa dos Mortos "... o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho." Dostoiévski
É simples o vôo da pena Cujo peso não pede influência Em que torta e leve Consegue pousar macia Como lira a cantar.
O peso é o crime O pouso a penitência que se deve pagar Ao inverno cortante Onde companheira se faz de cela De cobertor se faz o corpo.
Pela manhã ouçam o canto cantiga forçada de trabalho; Pela noite me venham copeques de serviço extra e mão em calejo.
O copeque se faz em vodca A espera do dia a se embriagar gozo, apronto Faz-se do crime o verso Da bebida o justo da pena.
Vem-se novo dia (novos meses de serviço) Só se resta esperar Um novo dia de vodca Um novo dia ao desperdício. Aguardar as desculpas da solidão.
Pois que sou a pena e o vôo Tenho o nome de liberdade E comigo sempre estará Quem direito tem a ser solitário.
O detento não deita em meu colo Pois quando fica só? Aprenda a ser fiador Trabalhe com a vela e o sapato (refugie-se na embriaguez) E faça de mim a luz no final do corredor.
Depois dos sinceros desejos de bem estar e esperança, um pouco da retórica da contradição.
Gangorra
Não me preocupo com quem ocupa os lados, balanço e caio conforme critérios físicos conceituados. Posso ter medidas de velocidade, Centro de massa a calcular, momentos de inércia, rotação. Brincar com duas crianças: ser estática.
Posso arrancar sorrisos dos corações maternos, empalar o verbo ou lhe fazer um ânus. Conduzo ao prazer do vento no rosto, sou frio e desgostoso - andrógeno: sou calada e taciturna, sarcástico e mau-humorado, Sou humano, objeto inanimado.
Senta no meu colo, criança: escolhe, tenho dois pra ti. Sou o pedófilo de uma nação, sou religião e ceticismo; mordo a bunda do meu povo, mastigo e cuspo os seus colhões.
Sou fiel até o parto, até segundos antes do choro; e quando parto já não sou útil e quando fútil sou inconsciência e quando vivo, sobrevivo. Enquanto sou pênis, coração; enquanto livre, reflexo.
Cedi minhas barras ao Oxigênio, minha madeira aos cupins; agora, são todos os sorrisos amarelos. O bebê é de metal, o garoto, ao qual eu insistia em aparecer, é magricela e tem fome. Já não levanto e me desfaço: apodreci.
Procuro meu espírito pelos cantos, já esqueci a minha canção: bela na boca das crianças, eterna nos olhos da velhice. Agora sou solidão embalsamada, testículo infértil e murcho, já não sou verde ou maduro: apodreci, e comigo veio o mundo.
Pensei que a última postagem do ano deveria ser majestosa, causasse impressões nos leitores e que uma das primeiras coisas que eles deveriam fazer em 2009 seria fazer uma releitura deste poema.
Desisti.
Vou colocar um poema de impressões utópicas para a maioria, no qual somente os românticos leitores de poesia conseguem apreciar e sentir uma alimentação saudável dentro de si. Quero dizer que existe o leitor que sempre imprime racionalidade em sua leitura e o que lê com o coração. O segundo é aquele que consegue sentir o que um poema tenta passar, que chora quando o escritor "diz" chore. Não quero criticar o leitor racional, defendo que uma pessoa deve ter as duas formas em si. Eu, como estudante de ciências e que mantenho um blog de poesias, tenho que ter os dois olhares.
Cruzes! Acabei enveredando por caminhos psicológicos demais, servindo-me de uma "psicologia empírica" (sei que meu amigo Darlan vai ri quando lê essa parte).
Pois bem! Que 2009 seja melhor do que já foi 2008 para todos. Que as "canções continuem belas e falando de amor".
Sem mais.
Manhã
Um dia houve Sol e beleza, acreditávamos demais numa luta, sonhávamos com o mundo, as pessoas não eram falsas e seus sorrisos não nos faziam chorar.
Não havia o terminal lotado nem imundície nas calçadas. Não havia o maltrapilho, ou gente que se mistura a esterco, nem esse excesso de solidão.
Que rezemos pelo Sol da manhã: já longo o lençol noturno e fria a apatia de tua espera. Rezemos, mesmo que não saibamos oração ou a quem dedicar as nossas preces.
Esperemos o fim do olhar indiferente, a recompensa das nossas oferendas, que sorrisos sejam simplesmente sorrisos, que toda canção seja longa e fale sempre de amor.
Quem pode fazer versos? Acho que qualquer pessoa com disposição para arriscar ou qualquer uma que somente sinta-se bem em conversar com si. Troque o si por uma folha de papel e veja no que dá. Acredito que o mais importante em qualquer poema é motivar sentimentos, cutucá-los para que eles respondam: "olha, eu existo".
Mas o conflito é inerente, principalmente depois de leituras e leituras. Mas defendo que nada deve fazer com que nos livremos do bom companheiro que é o papel. Podemos parar de escrever, perder nossa fonte de inspiração; mas um apreciador da poesia jamais perderá a sensibilidade que lhe é inerente.
Lucas Matos é meu amigo e um poeta. Espero que esta imagem não o ofenda: sei que vai entender. Por sinal, recomendo a leitura do seu blog, já que me considero pequeno perto do poder dos seus versos.
Sobre dúvidas e abandonos
Amigo, deixei as letras os papéis e as canetas. Deixei as idéias na cabeça os versos soltos e os sentimentos aqui dentro. O que farei agora?
Amigo, não confie nas palavras nem no silêncio destas garras. Recupera as tuas armas e leva um cesto de captura contigo, pois solto não deve ficar um contento. Mas repito: não confia.
Amigo, estou velho demais passou-me o tempo de poeta, já atingi as minhas metas. Aquieta, já basta, não escreverei jamais. Obrigado, deixa-me morrer agora.
Amigo, lembra que as idéias não têm idade, que as metas duram tanto quanto a vida; mas parece que persiste na canção maldita. Você vegeta, nada cria, já não me resta piedade. Mas insisto: não confia.
Mas abandonei as rimas os sonetos, as estrofes: não tenho mais inspiração. Levaram-me tudo, inclusive o perfume e o ciúme e a paixão... Que farei então?
Mas lembra-te que a poesia é um trabalho, lembra do teu suor e de como, salgado, ainda tecia. Pensa que nunca precisou de fragrâncias e ainda assim, poeta, existia... Mas persisto: não confia.
Ponto de vista. Pensando agora, enquanto escrevo, acredito que essa seria a expressão mais importante do mundo. Com ele sendo respeitado, não teríamos preconceitos, embates científicos que fossem infrutíferos, brigas a toa por falta de respeito.
"O seu direito termina quando o do outro começa". Uma clássica frase da convivência nos ensina muito a respeito do egoísmo. Para que serve a consciência senão para medir o nosso egoísmo? Somos podres e corrompemos tudo com o que temos contato. Elementos classicamente neutros e ideais, como a ciência e a burocracia, são deturpados e eu, como estudante de uma ciência, sou forçado a ouvir a ignorância dizer a culpa é do que eu estudo.
Nosso mundo é uma grande ferramenta e estamos usando-a para alfiner-mos e alfineta-lo.
Abraços a quem passa por aqui. Peço desculpas por esse texto.
Achando que somos muita coisa perdemos o compasso do que poderíamos ser, choramos numa latrina até a água descer. Tanto muito estranho esta hierarquia toda, estas coisas que prevemos que poderiam ser melhores... Mas, como chorar pelo que não aconteceu? Poderia realmente ser melhor?
Saímos da sociedade da informação para a sociedade da escolha: não é melhor o mais bem informado, pois informação pode ser encontrada. É melhor o que sabe selecionar o que encontra, sabe ser filtro. Mas os filtros são fabricados e há muito existe um problema proposital (veja, causado) em nossas máquinas.
O universo parece ser medíocre perto de alguns egos e é medíocre perto do que podemos ser, mas nunca somos. E, pensamos que somos quando na verdade só fazemos nos submeter. Não vamos pedir ao homem que tenha idéias, é pedir demais. Somente uma opinião espontânea seria digna de vigorosos aplausos e aclamações de "milagre".
Todo aquele ser racional que já se viu entregue a um sentimento ao qual não tem o menor controle deve entender o digo. Não importa o quanto se lute, quantas distrações sejam oferecidas para a mente... A noite, ao deitar a cabeça no travesseiro, as memórias explodem a sua cabeça e o desejo é presente, potente e indestrutível.
Pode haver a cura no nosso cansaço.
Utilizo a frase de Júlio Cortázar para que tudo seja dito em pouco: "... afinal, o que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"
Banalizamos tudo e este ato está na moda, virou algo cultural e precisamos disso para que sejamos aceitos. Hoje em dia nos assustamos mais com um casal de homossexuais se beijando do que com um mendigo a esmolar. Observa-se, assusta-se e deixa-se as evidências de lado... Afinal, "a vida continua e tenho que ser o primeiro". Quanta história.
O Canto da Madrugada
Seja de short sujo, Ou camiseta desfiada. Na gélida canção da noite, Ou no silêncio da madrugada.
Sobre calçadas obscuras, De ladrilhos a brilhar. Seu tesouro é este espaço, Que se põe a cuidar.
O momento faz arder os ossos, Que o frio insiste em desfiar. A fome que repuxa as tripas. A fome que revira o olhar.
E então vem A Noite. Vem a medida do pesar. Lança-se à madrugada, Uma voz desamparada a cantar.
Atuando na passarela, Da ilustre avenida. Na platéia prostitutas, E pessoas foragidas.
Duas frases em dó, E mais duas em ré, Uma rouca voz de fome, Um seqüelado corpo de pé.
O canto atende ao corpo, O corpo cala a fala. E o verso recém formado, É apagado com uma bala.
E quem ouviu o menino, Que ganhava o pão nas esquinas molhadas, Saboreava o gosto amargo do destino, E chorava o canto da madrugada?
O mundo está morrendo e estamos atribuindo a culpa a coisas erradas.
É de todo fácil criticar idéias... Mas, eu pergunto: quantas você já teve?
É muito mais fácil atribuir a culpa ao mundo que a uma imperfeição nossa.
Um pouco de um dos nossos principais combustíveis.
Prazer, prazer
Sou um pouco da brisa e da manhã, Passeio pelas faces, danço pelos ventos e não concluo nenhum dos meus dias.
Há quem me sinta efêmero, (como passos de cordeiro) Quem me faz mal julgamento; Mas não há quem viva (e a verdade seja dita) Sem o toque dos meus dedos.
Sou um pedaço de toda conquista e toda derrota, Praguejo campos de trigo, eternizo os de batalha e não há tempo para a glória dos meus feitos.
Salvo os dias mediante amor (como mãe protegendo a cria) Rogo ao espírito a força guia Eternizo escrituras em deleite (até me fazem versos) Despejado em folhas macias.